Uma equipe de arqueólogos desenterrou um capítulo crucial da história brasileira na antiga senzala da Fazenda do Pinhal, em São Carlos, interior de São Paulo. Enterrados a cerca de 50 centímetros de profundidade, artefatos como restos de fogueiras, cachimbos e contas de colar estão lançando luz sobre as formas de ocupação do espaço por pessoas escravizadas e as sucessivas tentativas de apagamento físico e simbólico dessa memória no período pós-abolição.
Edificada no século 19, a Fazenda do Pinhal, tombada em âmbito estadual e federal, foi uma proeminente unidade cafeeira sob o comando do futuro Conde do Pinhal, Antônio Carlos de Arruda Botelho. Contudo, a narrativa tradicionalmente focada nos proprietários começa a ser reescrita pelos achados arqueológicos, que agora ajudam a recuperar parte da memória das famílias negras que ali viveram e trabalharam.
“Eu sou são-carlense. Por muitos anos contava-se a história da família Arruda Botelho. Na cidade, a gente cresce ouvindo sobre o Conde do Pinhal, o Antônio Carlos, antigo proprietário da fazenda. E quase nunca sobre os trabalhadores, os escravizados e as famílias negras que também construíram a cidade e especificamente aquela propriedade”, destaca Joana D’Arc de Oliveira, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP e coordenadora do projeto que investiga a presença negra na fazenda.
As Camadas de uma História Enterrada a 50 Centímetros
As escavações, realizadas entre 2022 e 2025, revelaram as diferentes camadas de ocupação do edifício. No nível mais profundo, a 50 centímetros da superfície, foi identificado o piso de terra batida original, um achado incomum em sítios arqueológicos. Acima dele, pisos de cimento queimado e lajota indicavam ocupações mais recentes, incluindo as das famílias Silva e Zacarias, que moraram no local por mais de três gerações, e de imigrantes europeus.
Renato Kipnis, arqueólogo-chefe da escavação e diretor da Scientia Consultoria Científica, explica a raridade: “Na maioria dos sítios você não encontra esse piso. Isso acontece porque tem muita movimentação, vegetação, animais e os sedimentos acabam se misturando e dificilmente há um piso ‘original’. O que não acontece neste caso, pois ele sempre esteve protegido, apesar das ocupações”.
Nesses níveis superiores, foram encontrados uma moeda de 400 réis (1926), bicos de pena, ampolas de vidro e fragmentos de louça do início do século 20. Já no piso de terra batida original, foram descobertas duas moedas datadas de 1827 e cerca de nove estruturas de combustão, vestígios de fogueiras.
Fogueiras, Cachimbos e Contas: Símbolos de Vida e Cultura
As estruturas de combustão, frequentemente associadas a sedimentos queimados, carvão, cinzas, ossos de animais e sementes carbonizadas, são mais do que evidências de atividades domésticas. Em contextos de senzalas, as fogueiras eram importantes espaços de sociabilidade, onde aconteciam encontros, contação de histórias, transmissão de saberes e rituais. Essa prática se manteve entre as famílias negras que viveram no edifício posteriormente.
“A Jorgina Silva [ex-moradora do edifício] contou que o pai dela, comumente, fazia fogueiras quando estava muito frio dentro de casa, para aquecer os filhos. E ali no entorno, eles contavam histórias e tinham uma série de conversas. Ao descobrir que a população escravizada tinha essa prática da fogueira dentro da antiga senzala, não só para alimentação, ela não conseguiu conter a emoção”, relata Joana D’Arc.
A docente complementa: “O que nos faz ver a senzala para além de um dispositivo de poder, mas também como um espaço que foi habitado por essas pessoas. Independentemente das situações de violência a que foram submetidos, eles empregaram os seus saberes.”
Outros vestígios reforçam a presença de práticas religiosas de origem africana. No piso original, foram exumados dois cachimbos e duas contas de colares, elementos que representam conexão com o ancestral, cuidado e proteção. O uso do cachimbo, embora reprimido no contexto escravocrata, persistiu. Benedito Silva, membro da família Zacarias, recorda: “Minha mãe mesmo fumou o cachimbo até pouco antes de morrer, fumava e acendia”. As contas, por sua vez, remetem ao culto aos Orixás, como observado pelo babalorixá Isaías, que acompanhou as escavações.
Reconstruindo a Memória para Além do Apagamento
Os artefatos encontrados, além de formarem um rico conjunto de cultura material, revelam a manutenção das formas de repressão e apagamento da população negra no pós-abolição. Segundo Joana D’Arc, muitas arquiteturas negras do período escravista foram destruídas sob o discurso de “vamos destruir esses símbolos de violência”, mas também porque essa cultura material não se encaixava no repertório eleito pelos órgãos de preservação.
A pesquisa busca reverter esse processo, reinscrevendo o trabalho e o trabalhador na paisagem da propriedade rural e valorizando a memória das famílias Zacarias e Silva, que, em muitos casos, não sabiam que o local onde viveram havia sido uma senzala.
O Futuro da Preservação e da Narrativa Negra
Com a finalização das escavações, o próximo passo é a análise arqueológica, catalogação e interpretação detalhada do material. Contudo, o projeto vai além. Os achados serão levados a casas de Candomblé e Umbanda de São Carlos para captar outras interpretações, que serão incorporadas aos relatórios dos arqueólogos. Um filme-documentário também está sendo produzido, com a participação de pesquisadores, representantes de terreiro, ativistas do movimento negro e ex-moradores.
A Fazenda do Pinhal, hoje um Centro de Estudos, Pesquisa e Educação (Cepe), busca reinterpretar seu passado. “Os resultados da escavação vão continuar aparecendo. Iremos realizar conversas com os visitantes sobre o material que foi extraído das escavações e trazer mais pesquisadores de outros lugares”, afirma Lucília Siqueira, docente da Unifesp e coordenadora da implementação do PDGP e do Cepe, garantindo que a história enterrada continuará a emergir e a ser contada.
Fonte: jornal.usp.br
