A decisão de iniciar uma gravidez envolve uma série de fatores que vão muito além da saúde física. Uma pesquisa internacional inovadora, com a contribuição de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e publicada na revista The Lancet, acaba de propor, pela primeira vez, um conjunto de indicadores para guiar o monitoramento da saúde de pessoas que desejam engravidar. O estudo quebrou barreiras ao combinar a visão de profissionais de saúde com a perspectiva da sociedade civil na definição desses parâmetros.
Os indicadores propostos, baseados tanto na literatura científica quanto no ponto de vista de pessoas em idade reprodutiva de 13 países, abrangem medidas de saúde individuais e gerais. Enquanto comportamentos e condições de saúde individuais são frequentemente monitorados, a pesquisa destaca que medidas mais amplas, como o incentivo à atividade física e a rotulagem de alimentos, também beneficiam quem planeja uma gestação.
A Saúde Mental em Primeiro Plano
Entre os diversos aspectos avaliados, a saúde mental foi considerada o fator mais importante de uma gravidez hipotética pelos entrevistados, mostrando unanimidade nos rankings. Ana Luiza Vilela Borges, professora da Escola de Enfermagem (EE) da USP e participante do estudo, ressalta que essa prioridade se manteve consistente em 11 países com realidades muito distintas. Para os participantes, a saúde mental é crucial tanto para lidar com as transformações da gravidez quanto para o bem-estar da família, especialmente da mulher.
A pesquisa mostrou que as pessoas compreendem que a saúde vai além do físico, com questões mentais influenciando a condição física durante a gestação e até mesmo a saúde dos filhos. Curiosamente, a mudança climática foi um dos aspectos menos priorizados pelos entrevistados ao considerar uma gravidez futura, talvez por ser percebida como menos controlável individualmente do que a saúde mental e física.
Um Olhar Abrangente para a Saúde Pré-Concepção
O cuidado pré-concepcional envolve uma série de hábitos saudáveis e acompanhamento médico adotados antes da gravidez para garantir uma gestação segura e um bebê saudável. Idealmente, esse cuidado deve começar três meses antes da concepção, incluindo consultas médicas, exames de rotina e o uso de ácido fólico – essencial para a prevenção de malformações congênitas e defeitos do tubo neural. No Brasil, a fortificação de farinhas com ferro e ácido fólico é um exemplo de medida coordenada que beneficia a população em geral e, consequentemente, quem planeja engravidar.
A International Alliance for Core Indicators for Preconception Health and Equity (iCIPHE), que reúne os autores do artigo, propõe um conjunto de parâmetros básicos para monitorar a saúde pré-concepção em diversas regiões do globo. A ausência de um consenso sobre esses indicadores dificulta o planejamento da gravidez e a implementação de políticas públicas eficazes na área.
Desafios no Monitoramento e a Realidade Brasileira
Para que o monitoramento seja eficiente, os indicadores devem ser facilmente atualizáveis e comparáveis entre países, independentemente do nível de renda. A professora Ana Luiza explica que, embora alguns sistemas de informação já contemplem os critérios indicados pelo estudo, outros dependem de pesquisas nacionais de saúde que nem sempre ocorrem com a frequência necessária. Um sistema de informação consolidado poderia ser uma alternativa, unindo pesquisas existentes, como a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), que não é realizada há 20 anos no Brasil.
A pesquisadora aponta que cerca de metade das gestações no Brasil não são intencionais, o que reforça a relevância de considerar ações para a população em geral, e não apenas para casais que planejam a gravidez. Ela enfatiza que o Brasil, assim como muitos outros países, ainda não prioriza o cuidado pré-gravidez, focando mais no pré-natal da mulher já grávida.
O Caminho para Políticas Mais Eficazes
A falta de compreensão da comunidade sobre a relevância da saúde pré-concepção é uma das barreiras enfrentadas pelos cientistas. Esse foco, muitas vezes, não é incluído na formação profissional ou nas rotinas das equipes de saúde. Assimilar a importância do tema não significa esperar que todos planejem a gravidez com antecedência, mas sim que haja conhecimento para buscar o sistema de saúde nessas situações e que o próprio serviço possa dar uma atenção especial a esses casos.
Os indicadores propostos não se restringem às mulheres. “O foco principal é, claro, na mulher, mas todas as pessoas envolvidas na concepção – sejam homens, transgêneros ou não-binários – também precisam ter uma saúde melhor, pois a literatura já demonstrou o impacto da concepção nos desfechos obstétricos e neonatais”, afirma Ana Luiza Vilela Borges. A próxima etapa do estudo busca um consenso entre especialistas, agentes de políticas públicas e a população em idade reprodutiva, através de um questionário aberto para participação.
Fonte: jornal.usp.br
