Turismo Regenerativo no Brasil: Como a Atividade Vai Além da Sustentabilidade para Recuperar Ambientes Naturais e Urbanos Degradados

Em um cenário global de crescentes desafios ambientais e sociais, o conceito de turismo regenerativo emerge como uma nova e poderosa abordagem. Longe de ser apenas mais um segmento da atividade turística, ele se propõe a ser uma filosofia que busca ativamente a regeneração de ambientes naturais, sociais e ecológicos. Essa perspectiva, embora academicamente recente, já possui raízes em práticas ancestrais e ganha força no Brasil, com especialistas apontando o país como um potencial líder global nesse movimento.

O Que Define o Turismo Regenerativo?

O professor Thiago Allis, do curso de Turismo e Lazer da EACH-USP, e líder do grupo de pesquisa em Mobilidade e Turismo, esclarece que o turismo regenerativo não é um tipo de turismo, mas sim uma forma de entender e desenvolver a atividade. Essa abordagem se diferencia do turismo sustentável por seu propósito central. Enquanto o sustentável foca no apoio ao desenvolvimento econômico e na geração de lucros, com benefícios ambientais e sociais secundários, o turismo regenerativo tem como objetivo principal apoiar a saúde e o bem-estar das comunidades e do lugar, como explica a Dra. Loretta Bellato, pesquisadora adjunta da Federation University (Austrália).

Loretta destaca que o pensamento regenerativo não é inteiramente novo, mas sim uma forma de reinterpretar e unir saberes ancestrais. No Brasil, práticas turísticas de povos indígenas já se organizavam em torno da regeneração e reciprocidade, com profundo cuidado pela terra e pelo bem-estar comunitário. Para muitos especialistas, a ideia de sustentabilidade, popularizada pelo Relatório Brundtland de 1987, já não é mais suficiente ou se desgastou, especialmente diante das mudanças climáticas e da incapacidade do turismo tradicional de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.

O Potencial do Brasil na Liderança Global

A professora Jaqueline Gil, do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (UnB), enfatiza o papel crucial que o Brasil pode desempenhar no aprofundamento desse debate. Com mais de 80% de sua população vivendo em áreas urbanas, segundo o IBGE, a regeneração de espaços urbanos se torna central. Além disso, a vasta riqueza natural do país oferece inúmeras oportunidades para projetos de recuperação. “É um tema em que o Brasil pode vir a ser um grande líder nesse processo”, afirma Jaqueline, ressaltando a vantagem competitiva e de marketing que essa abordagem pode representar.

Da Teoria à Prática: Exemplos de Regeneração

A regeneração no turismo não se limita ao ambiente natural. Ela abrange também o urbanismo e o social. Jaqueline Gil aponta que essas práticas existiam muito antes da formalização acadêmica do termo. Exemplos incluem empreendimentos como o Cristalino Lodge, na Amazônia, onde os recursos das hospedagens e alimentação financiam diretamente a conservação de uma vasta área florestal. Fora do turismo, setores como a agricultura, com a Embrapa no Brasil, e a arquitetura, como no caso do Hotel Rosewood em São Paulo – que revitalizou edifícios históricos transformando-os em um complexo de luxo sustentável –, já aplicam princípios regenerativos há anos.

Esses casos demonstram como o dinheiro gerado pela atividade turística pode ser um motor para a recuperação de espaços degradados, sejam eles rurais, urbanos ou históricos, mantendo-os vivos e dinâmicos de forma autossustentável.

Como o Turista Contribui para a Regeneração?

O turismo regenerativo oferece duas principais vias de contribuição para os viajantes. Há um grupo de turistas que busca o engajamento direto, desejando “colocar a mão na massa” e participar ativamente de projetos de regeneração. Um exemplo prático é o plantio de corais em Pernambuco, onde turistas, sob orientação segura, contribuem diretamente para a recuperação de ecossistemas marinhos. Essa participação ativa acelera os processos de reflorestamento ou recuperação de ambientes.

Por outro lado, há o turista que prefere o descanso, mas ainda assim pode promover a regeneração por meio de sua contribuição financeira. Ao escolher empreendimentos e destinos que direcionam parte de seus lucros para a recuperação ambiental e social, esse turista impulsiona a economia regenerativa, financiando a saúde e o bem-estar dos lugares que visita. Assim, o turismo regenerativo se posiciona como uma ferramenta poderosa para reverter impactos negativos e construir um futuro mais saudável para o planeta e suas comunidades.

Fonte: jornal.usp.br

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