A expansão das cidades brasileiras tem sido marcada por um processo de exclusão que, ao longo do tempo, ganhou diferentes nomes. Do ‘subúrbio’ à ‘periferia’, a expressão atual que melhor descreve essa dinâmica excludente é o ‘racismo ambiental’. Este conceito revela como populações racializadas e de baixa renda são sistematicamente empurradas para territórios com maior risco ecológico, carentes de infraestrutura e serviços públicos básicos.
Diante desse cenário, o termo ‘resiliência’ ganhou força no discurso das políticas públicas. No entanto, pesquisadores alertam para os perigos dessa abordagem, que impõe aos indivíduos mais vulneráveis uma capacidade ininterrupta de adaptação e superação. Essa narrativa, segundo especialistas, opera um duplo apagamento: deslegitima o território como lugar de vida e invisibiliza o papel do Estado e das políticas públicas na indução desses processos.
O Engano da Resiliência e o Racismo Ambiental
A ideia de ‘cidades resilientes’ ou ‘periferias mais resilientes’ muitas vezes desvia a atenção das causas estruturais da desigualdade. Ao invés de questionar as dinâmicas que geram escassez, superexploração e subemprego, a ‘resiliência’ naturaliza essas condições e desloca a responsabilidade para o indivíduo. Essa visão ignora que a urbanização, especialmente em cidades subdesenvolvidas, curvou-se a uma lógica de mercado e do carro, fragmentando o espaço e privatizando bens públicos, enquanto o discurso oficial atribuía a periferização ao ‘crescimento populacional’ ou à ‘ausência de planejamento’.
Tecendo Resistência: A Voz das Mulheres Agricultoras
Em contraste com a passividade implícita na ‘resiliência’, emergem outras formas de viver e organizar o espaço. Estudos com mulheres agricultoras no extremo sul de São Paulo revelam como, nesses territórios, a vizinhança tece redes de confiança e solidariedade. Práticas de cooperativismo, mutirões de colheita e caronas solidárias não são apenas formas de sobreviver, mas de sustentar a vida coletivamente, reinventando espacialidades e convívios.
Essas mulheres narram violências que vão além das tipificadas pelo código penal: o acesso desigual à cidade, a ausência de saneamento adaptado à área rural, a dificuldade em acessar políticas públicas, o medo da violência física, simbólica e de gênero, e os desmatamentos que ameaçam sua existência. Essas violências entrelaçadas são produto de um planejamento urbano hegemônico que precariza territórios populares e nega direitos, afetando profundamente a relação com a Terra, o Trabalho, o Transporte e o Tempo (os ‘4 Ts’).
Para Além da Criminalidade: As Múltiplas Faces da Violência Urbana
A ‘violência urbana’ é frequentemente associada apenas à criminalidade nas periferias, reforçando uma lógica punitivista que estigmatiza os pobres. Contudo, essa visão é limitada e precisa ser tensionada. É preciso questionar a ideia de que a violência é um problema exclusivo da segurança pública, que a periferia é apenas produtora de violência (e não vítima central), que ela só ocorre no espaço urbano, que atinge a todos da mesma forma e que as formas mais profundas são apenas as visíveis no cotidiano.
Um exemplo claro são as ‘mortes silenciosas’ causadas pela poluição do ar, como a emissão de material particulado por combustíveis fósseis. Historicamente central na organização das cidades, essa poluição causa doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer, sendo uma das maiores causas de morte por fatores ambientais no mundo. No entanto, é categorizada como ‘morte não violenta’, invisibilizando uma forma sistêmica de violência que serve ao projeto neoliberal, diluindo responsabilidades políticas e impedindo a emergência de soluções coletivas e solidárias.
Por Uma Nova Agenda Urbana: Da Resiliência à Resistência
As mulheres são as mais atingidas por essas violências, justamente por estarem mais implicadas nas funções de cuidado ambiental e coletivo. Contudo, sua posição não é apenas de vítima. É a partir dessa implicação que elas tecem formas de resistência cotidiana, movendo-se entre a necessidade de ‘fazer-se existir’ (em vez de meramente sobreviver) e a criação de novos formatos comunitários diante das mudanças climáticas e das policrises.
A chave para uma nova agenda urbana reside na tensão entre ‘resiliência’ e ‘resistência’. Essa agenda não deve se limitar a exigir que os corpos suportem a desigualdade, mas deve se comprometer a transformar as estruturas que a produzem. É fundamental lançar luz sobre os territórios que, de fato, sustentam a vida — humana e não humana —, a biodiversidade e a força de trabalho (inclusive de cuidado) nas cidades, valorizando a resistência e a ação coletiva como pilares da justiça urbana.
Fonte: jornal.usp.br
