Às vésperas de seu falecimento, Antonio Carlos Robert Moraes, carinhosamente conhecido como ‘Tonico’, estava em seu auge intelectual. Sua mente fluía, suas manifestações eram cada vez mais assertivas e sua presença, vibrante. Dez anos após sua partida, em julho de 2015, a percepção de seu legado é clara: dele, resta tudo, menos sua presença física.
Produto da efervescência entre 1964 e 1968, Tonico sintetizou uma geração que escolheu ‘ser gauche na vida’, refugiando-se na cultura e superando desafios pela educação, engajamento e convicção. Ele se tornou um intelectual, acadêmico, geógrafo e professor da Universidade de São Paulo (USP), deixando uma marca indelével no pensamento brasileiro.
O Geógrafo Inovador e o Acadêmico Brilhante
Tonico dedicou-se à Geografia na USP de 1973 a 1977, sem jamais abandonar os estudos em Ciências Sociais, que cursou de 1974 a 1979. Em 1982, ingressou como professor no Departamento de Geografia da USP, onde construiu uma carreira acadêmica exemplar: mestre em 1983, doutor em 1991, livre-docente em 2000 e titular em 2004. Para muitos, ele se firmou como o geógrafo mais criativo de sua geração.
Sua estreia literária foi um marco: ‘Geografia. Pequena História Crítica’, lançado em 1981 sob os auspícios do professor Armando Correa da Silva. Breve, sintético e elegante, o livro preencheu uma lacuna nos estudos introdutórios de Geografia no Brasil, tornando-se uma referência obrigatória em um país às vésperas da redemocratização. A obra surgiu em um contexto de renovação da Geografia brasileira, influenciada pelos embates de Fortaleza em 1978 e o retorno de Milton Santos, arejando as mentes das novas gerações.
Essa capacidade de renovação se refletiu em suas obras subsequentes, como ‘Geografia Crítica’ (1984), ‘Ideologias Geográficas’ (1988), ‘A Gênese da Geografia Moderna’ (1989), ‘Meio Ambiente e Ciências Humanas’ (1994), ‘Bases da formação territorial do Brasil’ (2000), ‘Território e História no Brasil’ (2002) e ‘Território da Geografia de Milton Santos’ (2014), além de inúmeros artigos e palestras que ofereciam ‘oxigênio puro para se pensar a Geografia, entender o mundo e mudar o Brasil’.
A Geração ‘Gauche’ e o Espírito Contracultural
Nascido em Poços de Caldas (MG) em 1954, Tonico chegou a São Paulo aos cinco anos, absorvendo a euforia dos ‘anos dourados’ de JK, o frisson do Quarto Centenário da cidade e o êxtase das vitórias da seleção brasileira de futebol. Esse frenesi inicial foi somado às notícias da Revolução Cubana e aos embates em Paris e Argel, lidos no Estadão.
Ele testemunhou o Brasil e o mundo mudarem, com a construção de Brasília, o Cinema Novo, a Bossa Nova, e a efervescência cultural e modernizadora do Plano de Metas. No entanto, esses sonhos começaram a ruir em 1961 e foram ‘embalsamados’ em 1968 pelo regime militar. Foi nesse cenário que Tonico levou a sério o chamado de Drummond para ‘ser gauche na vida’, afastando-se de Marighela e Debray para abraçar a contracultura, inspirando-se em Hélio Oiticica e seu lema ‘Seja Marginal, Seja Herói’.
Essa postura de ‘marginal’ e ‘herói’ o levou a integrar as primeiras turmas do Colégio Equipe, inclinar-se para as Humanidades e ser aprovado em primeiro lugar em Geografia (1973) e Ciências Sociais (1974) na USP. Ele resistiu às ilusões e navegou contra a corrente, tornando-se um símbolo de fina autenticidade.
Engajamento Político e a Construção Democrática
Nos anos da ‘abertura’ de Geisel-Golbery-Silveira, Tonico abraçou a missão de ‘refazer-se’. Na USP, ajudou a refundar o DCE em 1975. Fora dela, aproximou-se do PCB, participou da refundação da UNE e foi fundamental na construção do Sinpro – Sindicato dos Professores do Ensino Privado.
Com o avanço da redemocratização, filiou-se ao MDB de Ulysses Guimarães e Franco Montoro, fundando o diretório do partido na Vila Madalena em 1978. Em 1980, já bacharel, participou da vanguarda acadêmica da Unicamp. Em 1982, retornou como professor da USP, onde permaneceu até sua partida. Sua convicção o levou a divergir do PCB, inclinar-se para o PMDB (depois PSDB, do qual foi fundador em 1988) e transpor suas ideias gramscianas para publicações como ‘A Voz da Unidade’ e ‘Temas de Ciências Humanas’.
Sua militância intensa não se restringiu à academia e aos partidos. Tonico integrou a equipe de formulação do plano de governo de Franco Montoro, foi peça angular na renovação da Adusp e da Andes, atuou como consultor da presidência da República para assuntos climáticos (a partir de 1986) e assessor científico da Fapesp, além de animar grupos de trabalho no Ibama. Viveu uma vida ‘a mil’, combinando o professor, o militante e o ator de destaque na renovação da Geografia brasileira.
Um Legado que Permanece Vivo
A vida de Tonico, marcada por uma presença crescente na academia e no debate público, encerrou-se em 2015. No entanto, ao refletir sobre esses dez anos sem ele, a convicção é que, de Tonico, resta tudo. Suas obras, suas ideias e sua maneira irreverente, porém rigorosa, de entender o mundo e o Brasil continuam a nos provocar.
Resta sua militância, seu desejo por mais democracia e uma certa ideia de excelência. E, para aqueles que o conheceram, resta a memória de seu sorriso, seu olhar, seus silêncios, sua contrição, suas baforadas e sua ‘joie de vivre’. Tonico segue presente, um expoente e síntese de sua época, e, mesmo presente, faz muita falta.
Fonte: jornal.usp.br
