Viajar com animais de estimação deixou de ser um nicho para se tornar uma força motriz no turismo contemporâneo. No Brasil, onde a população de pets (cães e gatos) alcança a impressionante marca de 150 milhões — superando os 40 milhões de crianças com até 14 anos, segundo dados do Instituto Pet Brasil e do Censo Demográfico 2022 do IBGE —, a presença desses companheiros peludos nas decisões de viagem é cada vez mais determinante.
Vitória Avelino, doutoranda em Turismo pela Universidade de São Paulo e especialista na área, destaca a mudança de status: “Mais do que companhias, os pets passaram a ser sujeitos afetivos que influenciam decisões importantes da rotina doméstica, como a escolha de destinos de viagem, meios de transporte e hospedagem.” Essa nova realidade impulsiona uma reestruturação profunda em todo o setor turístico.
A Revolução Pet Friendly no Mercado de Viagens
A adaptação do mercado é visível. O setor hoteleiro, por exemplo, tem implementado políticas pet friendly, especialmente nas capitais. Em Belo Horizonte, hotéis não só aceitam animais em seus quartos, mas também oferecem serviços especializados, como áreas de lazer e cardápios exclusivos para os bichinhos, conforme apontado em estudo da revista Hospitalidade.
O setor de transportes acompanha essa tendência. Em 2023, cerca de 80 mil pets foram transportados por companhias aéreas brasileiras, com 90% viajando na cabine junto aos seus tutores. A Latam, por exemplo, registrou um aumento de 21% no transporte de animais de pequeno porte em voos domésticos entre 2022 e 2024. Além disso, a liberação gradual de pets em espaços públicos como shoppings, praias e trilhas reflete a crescente demanda por um turismo inclusivo para toda a família, incluindo os membros de quatro patas.
O Impacto Econômico da Companhia Animal
Do ponto de vista econômico, a presença dos pets no turismo é robusta. O mercado pet brasileiro movimentou cerca de R$ 75 bilhões em 2024, um crescimento de 12,1% em relação a 2023, segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação. Uma parcela significativa desse valor está diretamente ligada à “economia da experiência”, que engloba viagens, hospedagens e produtos específicos para pets em trânsito.
Desafios e o Futuro do Turismo Interspecífico
Apesar do crescimento, o turismo pet friendly enfrenta desafios. Um estudo de 2020 indica a falta de padronização nos serviços, a ausência de treinamento especializado para trabalhadores do setor e possíveis conflitos entre hóspedes tutores e não tutores. Essas questões exigem o desenvolvimento de políticas de convivência mais claras e eficazes para garantir uma experiência positiva a todos.
Vitória Avelino conclui que, neste cenário, pensar em políticas públicas, formações profissionais e estratégias de mercado voltadas ao turismo pet friendly não é apenas responder a uma tendência de consumo. “É reconhecer uma reconfiguração profunda das relações entre humanos e animais, que afeta desde os vínculos afetivos até as lógicas de mobilidade e pertencimento. Ignorar esse movimento é permanecer preso a uma concepção ultrapassada de turismo, centrada apenas na figura do turista humano autônomo. Reconhecê-lo, por outro lado, é compreender que hoje viajamos acompanhados não apenas por malas e documentos, mas também por vínculos afetivos que latem, ronronam — e movimentam bilhões.”
Fonte: jornal.usp.br
