A expansão do ensino superior brasileiro, tão almejada como motor de desenvolvimento social, cultural, econômico e científico, revela-se uma miragem. Dados recentes apontam para uma estagnação na expansão real, aquela que se concretiza em campi, forma profissionais e impulsiona a pesquisa. No setor privado, o crescimento presencial desde o início dos anos 2000 foi de irrisórios 3%, aquém até mesmo do crescimento populacional. A grande massa de estudantes, que antes buscava ascensão social em salas de aula noturnas, foi transferida para as telas, tornando o campus físico um produto restrito a poucos cursos de elite.
A “Financeirização” da Educação e o Cenário Alarmante do EaD
A hegemonia do setor privado, que hoje abocanha 80% das matrículas – um aumento de 10% em duas décadas –, consolidou a “financeirização” do diploma. Nesse modelo, a qualidade é frequentemente sacrificada no altar da quantidade. O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de 2023 expôs um abismo: o desempenho dos alunos de Educação a Distância (EaD) em licenciaturas beira o trágico. Esse “estelionato educacional” se estende a áreas cruciais, como a saúde. Os resultados medíocres das instituições privadas no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) comprovam que a lógica financeira é incapaz de garantir a qualidade necessária, transformando a expansão do setor público em uma questão de saúde pública. O resultado é a formação de profissionais que mal dominam conceitos básicos, perpetuando um ciclo vicioso que mantém o sistema educacional brasileiro entre os mais precários da América do Sul, fato ilustrado pela nossa taxa de analfabetismo, uma das cinco maiores da região.
São Paulo: Um Espelho da Estagnação Pública e a Perda de Relevância
O estado de São Paulo, historicamente uma locomotiva do desenvolvimento, ilustra a gravidade da situação. Sua participação relativa nas matrículas foi reduzida ao longo do tempo. As matrículas presenciais na rede pública estadual (USP, Unesp, Unicamp e Fatecs) estão consolidadas em um patamar pouco acima de 200 mil, um número que permanece aquém da explosão da demanda e da complexidade da economia paulista, mostrando sinais claros de estagnação frente à pressão por inovação. Nacionalmente, a rede pública foi o único motor de expansão física, quase dobrando suas matrículas presenciais, principalmente por meio das instituições federais. Contudo, em termos relativos, a participação do setor público no sistema encolheu de 30% para 20%. O resultado é um sistema de duas velocidades: uma rede pública que cresceu em números absolutos, mas perdeu relevância, e um setor privado que desistiu da presencialidade para as massas. A tão propalada “democratização” entregou o certificado, mas segregou o espaço e sonegou o conhecimento.
O Financiamento Fragmentado e as Consequências para o País
A raiz dessa situação reside em um financiamento insuficiente e fragmentado. Enquanto municípios e estados dividem a responsabilidade pela educação básica, o ensino superior é compartilhado na proporção de dois para um entre União e Estados. A responsabilidade é fatiada pelos três níveis governamentais, mas sufocada por investimentos públicos que não conseguem romper a inércia institucional. Sem uma regulação eficaz do EaD, uma fiscalização rigorosa das instituições privadas e de seus cursos, e um investimento robusto no setor público, o Brasil continuará a solidificar seu atraso educacional.
O Caminho para Resgatar a Qualidade Acadêmica
Superar esse atraso histórico exige mais do que a simples entrega de diplomas de papel; demanda um investimento público substancial, capaz de resgatar o convívio acadêmico como um espaço real de transformação e inovação. Sem essa mudança estrutural, o país seguirá apenas assistindo à institucionalização da mediocridade e à consolidação de uma nação educacionalmente estagnada e submissa, comprometendo seu potencial de desenvolvimento em todas as esferas.
Fonte: jornal.usp.br
