O Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP recebe, a partir de 28 de março, a exposição “Boca do Sertão”, a primeira individual do artista indígena e pesquisador Irineu Nje’a Terena. A mostra, que ficará em cartaz até 28 de junho de 2026, é um poderoso gesto de travessia e enfrentamento, nascido de uma terra marcada pelo silêncio imposto e pela sobreposição da história oficial sobre as vozes ancestrais.
A Arte como Campo de Memória e Crítica
Irineu Terena, natural da Aldeia Kopenoti, na Terra Indígena Araribá, e residente em Bauru (SP), utiliza a arte como ferramenta essencial para a elaboração da memória, da resistência e da crítica histórica. Sua produção abrange cerâmica, pintura, desenho, instalação, documentário, videoperformance e animação, sempre com o compromisso de afirmar, dar continuidade e atualizar as culturas indígenas. Fernanda Pitta, docente do MAC USP e responsável pelo acompanhamento curatorial, destaca que a obra de Irineu articula práticas artísticas, pesquisa e ação política para confrontar os apagamentos que historicamente marcaram os povos indígenas do interior paulista.
“Boca do Sertão”: Uma Fronteira Simbólica e Dolorosa
Para o artista, a expressão “boca do sertão” carrega o peso simbólico de uma fronteira. Ela demarca o limite entre o urbano e o território originário, entre o domínio da cidade e o mistério da mata, entre a busca do lucro e a cosmovisão ancestral. Essa fronteira foi palco da chamada “pacificação” dos Kaingang, iniciada em 1912, uma ofensiva estatal para garantir a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Sob esse eufemismo, escondeu-se uma realidade brutal de contenção, remoções forçadas e apagamentos culturais, que resultou no genocídio dos povos indígenas do Centro-Oeste paulista.
Aproximadamente oito grupos Kaingang ocupavam a região e foram deslocados para Icatu, Braúna e para a Aldeia Vanuíre, em Arco-Íris, onde ainda hoje resistem e desafiam o esquecimento. A exposição de Irineu constrói uma narrativa autoral sobre esse passado doloroso, trazendo à luz as memórias silenciadas.
O MAC USP como Espaço de Protagonismo Indígena
Irineu Nje’a Terena também é pesquisador artista convidado do projeto internacional Decay Without Mourning: Future-Thinking Heritage Practices, sediado no MAC-USP, onde investiga a memória e a agência da cerâmica terena. A mostra “Boca do Sertão”, realizada com recursos do ProAC, é itinerante e, antes de chegar ao MAC, percorreu as cidades de Bauru, Araraquara e Birigui, encerrando seu percurso na capital paulista.
Ao receber a exposição, o MAC USP reafirma seu compromisso em ser um espaço onde a presença indígena se inscreve por meio da autorrepresentação, da agência e do protagonismo, conforme ressaltado por Fernanda Pitta.
Serviço:
- Exposição: Boca do Sertão: Irineu Nje’a Terena
- Curadoria: Irineu Nje’a Terena
- Acompanhamento curatorial: Fernanda Pitta (MAC-USP)
- Abertura: 28 de março de 2026, 11 horas
- Período: 28 de março a 28 de junho de 2026
- Local: MAC-USP – Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301 – Ibirapuera
- Horário: Terça a domingo, das 10 às 21 horas
- Entrada: Gratuita
- Telefone: (11) 2648-0254
Fonte: jornal.usp.br
