A busca por uma vida longa e plena ganha um novo aliado: o trabalho na terceira idade. Longe de ser apenas uma questão econômica, a atividade profissional após os 60 anos se revela um pilar fundamental para a saúde mental, o bem-estar social e a vitalidade física. Segundo Egídio Dórea, médico e coordenador do programa USP 60+ da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, os impactos são profundos e transformadores.
O cenário brasileiro reflete essa tendência: em 2024, o IBGE registrou que 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ativas no mercado, o maior percentual da série histórica desde 2012. Na faixa etária dos 60 aos 69 anos, quase metade dos homens e mais de um quarto das mulheres mantinham-se ocupados.
Além da Renda: Impactos na Saúde e Bem-Estar
A necessidade financeira é, sem dúvida, um motor para muitos idosos. Dados recentes do INSS mostram que cerca de 70% das aposentadorias pagas não ultrapassam um salário mínimo. “A aposentadoria pública, muitas vezes, não dá conta de todas as necessidades da pessoa idosa. Trabalhar, mesmo que em jornadas reduzidas ou de forma autônoma, pode garantir mais tranquilidade financeira”, explica Dórea, permitindo custear medicamentos, manter uma alimentação de qualidade ou até realizar atividades de lazer. Essas questões podem diminuir o estresse e contribuir diretamente para uma velhice mais digna e segura.
Contudo, os benefícios vão muito além do dinheiro. O trabalho é um potente antídoto contra a solidão, que afeta mais de 25% dos idosos no Brasil, segundo Dórea. Manter uma rotina, um senso de utilidade e pertencimento é essencial para a saúde mental. A atividade intelectual contínua, por sua vez, reduz significativamente as chances de desenvolver demências. Fisicamente, o engajamento profissional combate a sarcopenia, a perda de massa e força muscular comum em pessoas com mais de 60 anos, contribuindo para uma vida mais ativa e independente.
Desafios e Soluções para a Inclusão
Apesar dos evidentes benefícios, a inclusão do trabalhador sênior no mercado ainda enfrenta barreiras. O principal deles é o etarismo, o preconceito etário, que “muitas vezes impede que pessoas com décadas de experiência sejam sequer chamadas para entrevistas”, afirma Egídio Dórea. Para ele, o primeiro passo é justamente enfrentar esse preconceito.
A superação desse obstáculo exige mudanças estruturais e políticas de apoio. Dórea aponta a necessidade de as empresas criarem políticas de inclusão, programas de mentoria e ambientes de trabalho adaptados. Paralelamente, o poder público deve investir em políticas de incentivo à contratação, requalificação profissional e acesso a novas tecnologias. Iniciativas como o Projeto Longevidade, de inclusão produtiva e digital no Estado de São Paulo, são exemplos a serem expandidos. Internacionalmente, países como o Japão, onde quatro em cada dez idosos permanecem ativos, e a Alemanha, que oferece incentivos fiscais para a contratação de profissionais mais velhos, mostram o caminho.
A Nova Realidade do Idoso Ativo
Com o aumento da longevidade e da qualidade de vida, o papel do idoso na sociedade moderna se redefine. Longe de ser apenas um receptor de cuidados, o idoso de hoje é também um consumidor de novos produtos e serviços, e, cada vez mais, um produtor. Essa nova dinâmica, impulsionada por demandas neoliberais do mundo pós-moderno, exige uma compreensão mais profunda das mudanças sociais e da função do trabalho na terceira idade. Entender e valorizar essa participação é crucial para promover um envelhecimento não apenas saudável, mas também produtivo e cheio de propósito.
Fonte: jornal.usp.br
