A Busca Pela Harmonia Ideal: Selma Boragian Relembra a Intimidade e os Ensinamentos de João Gilberto em Visita Reveladora

A Perfeição do Canto e a Clareza da Melodia

João Gilberto, o lendário pai da Bossa Nova, era um incansável buscador da harmonia e do canto ideais. Em uma de suas visitas ao apartamento do artista, a orientadora de técnica vocal do Coralusp, Selma Boragian, testemunhou de perto essa obsessão pela perfeição. Gilberto evitava o uso de portamento no samba, diferenciando-o do jazz, onde, segundo ele, “tudo bem”, mas no samba não. Era como se dissesse: “Me admiram, mas não me imitam”, buscando um refinamento que muitos não replicavam.

Durante o encontro, João convidou Selma a cantar: “Cante uma música, Selminha, pode ser qualquer uma, você escolhe, eu te acompanho.” A emoção a deixou sem palavras. Ele então sugeriu “Largo da Lapa”, lembrando-se de como Gal Costa a cantava tão bem. Embora Selma conhecesse a música, não sabia a letra, e João cantou e tocou um trecho. Momentos depois, ao cantar “Eu sambo mesmo”, de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, que havia gravado no disco João, Selma se juntou, e no refrão “é… só no samba que eu sinto prazer”, ele começou a abrir vozes. A voz de Selma, vibrante pela emoção, chamou a atenção do mestre. “Deixei de usar o vibrato porque ele não ajuda na clareza da melodia. A emissão limpa e lisa é melhor para o entendimento da música e da letra”, explicou ele, sem saber que a emoção era a verdadeira causa do vibrato de Selma, que por dentro gritava: “Abri vozes com João Gilberto!”

Para João, o foco era sempre a reverência à música popular, o respeito às palavras, a clareza melódica e a expressão sem exageros, sem sobras, a beleza das escolhas. Não se tratava de romper com o passado ou de buscar um estilo moderno por si só, mas de aprimorar a essência da música brasileira, sem nunca dizer que queria “romper com isso ou aquilo” ou “cantar diferente de Orlando Silva”.

Entre Palmitos na Brasa e Refrigerantes de Laranja: A Hospitalidade do Mestre

O segundo encontro de Selma Boragian, Fernando Faro e Edinha Diniz com João Gilberto, um dos três que ocorreram entre 2004 e 2005, foi em seu apartamento. A noite começou com um belo jantar de um de seus restaurantes preferidos — couve, carne de porco e tutu — entregue pelo entregador no elevador de serviço. Em um toque de praticidade e bom humor, João interfonou para o porteiro pedir que, por favor, colocasse um limão no elevador, pois estava fazendo falta. A cozinha do artista, por sua vez, se destacava pela quantidade enorme de garrafas de água mineral e refrigerantes de sabor laranja sobre a bancada.

A hospitalidade e o carinho de João foram surpreendentes e serviram como uma grande lição para Selma: o quanto não se deve acreditar em boatos ou fofocas. Ele pediu palmitos frescos na brasa, um luxo inesquecível para ela, lembrando que era vegetariana. Essa atenção contrastou com a primeira visita, quando Selma, para não chatear o anfitrião, acabou comendo lagostins, só confessando sua dieta quando um segundo bicho foi servido em seu prato.

Paixões Secretas e Admiradores Musicais

Além da música, João Gilberto nutria paixões por chocolate, por gatos e, especialmente, pelos grupos vocais. Ele revelou ter participado brevemente dos Anjos do Inferno, uma passagem pouco comentada, e ficava chateado ao ler que o haviam “expulso” do grupo, afirmando ter saído por vontade própria. Sua admiração por Jonas, líder dos Garotos da Lua, era evidente, destacando seu talento como compositor. João chegou a cantar “Rosinha” e “Eu e meu coração” para seus convidados.

O mestre também destacava outros talentos musicais como Luiz Bonfá, Tom Jobim, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Marino Pinto, Gal Costa, Vinicius de Moraes, Rita Lee e Herivelto Martins. Curiosamente, ele desmistificou a ideia de que Mário Reis teria sido uma grande influência para ele, como alguns diziam. Havia também uma particularidade em seu repertório: ele não gostava de cantar músicas com as palavras “morte” ou “morrer”, com raras exceções como “Sinfonia do Rio de Janeiro” e “Guacyra” (“e se ela não quiser eu vou morrer cheio de fé”). Apesar de gostar muito da música “Morrer de Amor”, ele nunca a gravaria devido ao título.

Um Homem de Múltiplos Interesses e Espiritualidade

As muitas horas de conversa nos três encontros com Selma Boragian, Fernando Faro e Edinha Diniz eram um verdadeiro caleidoscópio de temas. João Gilberto transitava dos assuntos musicais para política, a vida nos Estados Unidos, a diferença entre Rio e São Paulo, os amigos, decepções e seus shows no Japão, entre outros. O tom, geralmente amigável e amoroso, evitava focar em críticas ou queixas prolongadas, mostrando um homem que não se prendia muito tempo em falar mal de alguém ou se queixar de algo. Boragian descreve-o como um homem “quase normal, inteligente e sensível acima da média”.

Sua espiritualidade também era um aspecto importante. João Gilberto contava que, às vezes, assistia a missas às 6h da manhã na televisão, antes de dormir, e fazia exercícios de respiração, yoga e pranayamas, dizendo sentir-se cada vez mais espiritualizado. Até mesmo um detalhe astrológico marcou um dos encontros: antes da visita, Fernando Faro ligou para João e, sabendo que era aniversário de Selma, passou o telefone para ela. João, meio sem graça, deu os parabéns e disse: “Geminiana como eu!”. Selma o corrigiu: “Não, eu sou canceriana…”. Ela sentiu, inclusive, um leve desgosto por não ser geminiana como ele estava comemorando, um momento de surpresa e leveza que ela guarda com carinho e um toque de humor.

Fonte: jornal.usp.br

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