A humanidade tem se debruçado, ao longo de sua história, sobre a complexa questão das origens dos problemas fundamentais que a afligem. De diferentes épocas e perspectivas, pensadores e estudiosos buscaram identificar o ponto de partida de nossos males, projetando essas preocupações em figuras e eventos que se tornaram alvo de constante debate.
Alguns apontam para o advento da agricultura e a sedentarização da vida na pré-história como o marco inicial. Outros veem na escrita e na subsequente retração da capacidade de se sensibilizar com o presente a fonte dos desafios. Há quem situe a separação da humanidade dos demais animais, o surgimento do patriarcado, o colonialismo, a racialização pseudocientífica, o trabalho escravo, a instituição do Estado ou a consolidação do capitalismo como os pilares das desigualdades e dificuldades contemporâneas.
A Busca pelas Raízes do Mal e os Caminhos para a Solução
A identificação da origem do mal é vista como crucial para a proposição de saídas efetivas. Nem sempre a solução reside na eliminação dos obstáculos presentes, mas sim em abordar o que os produz. Uma das abordagens sugere a necessidade de retornar ao ponto em que uma “má escolha” foi feita, reparar as fissuras provocadas e, então, reorientar o destino. Este é um caminho frequentemente lento, marcado por recaídas, mas considerado essencial por seus defensores.
Outra perspectiva aposta na ideia de que nenhum dos grandes problemas listados resultaria em um mal tão profundo se seus desdobramentos fossem experimentados em escala reduzida. Ou seja, a intensidade da violência é que a tornaria traumática e irreversível. Essa linha de raciocínio propõe que a solução estaria em buscar um equilíbrio viável, calibrando a medida dos impactos sobre o mundo e os outros, em vez de interromper completamente o processo. Contudo, o acúmulo de pequenas doses de um suposto “remédio” pode, paradoxalmente, convertê-lo em veneno, e nem sempre antídotos e atenuadores são suficientes para garantir a continuidade de um caminho.
A ‘Geleia Geral’: Quando os Problemas se Fundem em um Novo Inimigo
Leituras mais recentes sugerem que a interação entre problemas de origens distintas pode provocar uma mudança de ordem estrutural, dando origem a um novo e complexo desafio que demanda soluções inovadoras. A combinação das piores faces do patriarcado, do colonialismo, do racismo, do Estado, da religião laicizada e da ciência, por exemplo, teria levado as sociedades ocidentais modernas a perpetrar genocídios, guerras mundiais, devastação socioambiental e a fundar o que hoje chamamos de Antropoceno-Capitaloceno. Essa “geleia geral” de problemas acumulados ao longo da existência humana teria nos conduzido a um ponto de não retorno, onde a destruição dos modos de vida como os conhecemos parece ser inevitável.
Diante de um “inimigo” tão poderoso e multifacetado, atacar seus componentes de forma segmentada torna-se ineficaz. É preciso compreender o modus operandi desse novo ser estruturado, nascido do encontro singular e contínuo das “más escolhas”. No entanto, essa compreensão estrutural-sintética é extremamente difícil de ser alcançada e aplicada no cotidiano, e ainda mais desafiadora de ser amplamente compartilhada para constituir uma resistência viável ao que emerge como terrível e avassalador.
Ação Individual e as Respostas Ambivalentes
A magnitude desses desafios pode levar muitos a desistir da luta. A experiência de cada pessoa acontece na temporalidade de trocas que apresentam apenas pequenas facetas dos grandes problemas. Para conceber a “grande questão” em abstrato, é necessário um salto reflexivo, pois no dia a dia, cada um tem acesso apenas a partes menores e localizadas de inúmeras questões pontuais que o afligem.
Para aqueles que se recusam a se conformar com o status quo, uma opção é lidar com a parcialidade das experiências e fazer sua “pequena parte”. Trata-se de um esforço para estabelecer conexões progressivas e, quem sabe, ganhar maior amplitude em prol da vida como um todo. Essa jornada, embora árdua, é uma forma de navegar pelos desafios cotidianos que, inevitavelmente, mobilizam afetos ambivalentes – entre a esperança de mudança e a frustração da lentidão, entre a ação individual e a percepção da imensa complexidade global. É um caminho que, em sua essência, busca reorientar o destino, mesmo que as “grandes verdades” projetadas como alvos a combater se revelem, por vezes, como realidades invisíveis e duvidosas.
Fonte: jornal.usp.br
