Em uma sociedade que frequentemente valoriza o desapego, a atitude de Nery Rezende se revela uma virtude inestimável. Uma mulher negra, trabalhadora urbana que testemunhou a transformação de São Paulo em metrópole no século 20, Nery era também uma acumuladora. Ao longo de sua vida, ela guardou meticulosamente diários, cadernos, correspondências, fotografias e papéis de todo tipo. Esse hábito, por muitos visto como um defeito, tornou-se para o Museu do Ipiranga um tesouro: um arquivo pessoal de mais de 9 mil itens, o primeiro desse porte oriundo de uma mulher negra a integrar o acervo da instituição ligada à USP.
Nascida em 1930 em São José do Rio Preto, Nery Rezende mudou-se jovem para a capital paulista. Seu arquivo, que chegou ao Museu do Ipiranga em 2020 por doação de sua filha, Greissy Rezende, e intermediação do antropólogo Alexandre Bispo dos Santos, oferece uma janela rara para o cotidiano da classe trabalhadora e da população negra em São Paulo. Fotografias, impressos de lojas de departamento, correspondências e objetos domésticos compõem essa coleção variada, que permite investigar aspectos pouco documentados da história.
A Paixão por Guardar: Um Legado Inestimável
A professora Solange Ferraz de Lima, do corpo docente do Museu do Ipiranga, destaca a riqueza do material: “É uma coleção que expressa muito bem o que era o cotidiano de uma mulher que vivia em São Paulo, de um estrato médio da sociedade, trabalhadora”. O antropólogo Alexandre Bispo dos Santos, que defendeu sua tese sobre o arquivo e prepara um livro intitulado “A paixão por guardar”, ressalta que a documentação variada permite explorar o que a classe trabalhadora consumia e os preços da época, oferecendo pistas sobre o acesso a produtos de consumo.
A pesquisadora de pós-doutorado Liliane Braga, responsável pela catalogação do material, reforça a importância da acumulação de Nery: “Sendo uma acumuladora, ela tem um arquivo muito precioso, porque ele permite que a gente conheça aspectos da vida cotidiana dessas mulheres, mulheres negras da década de 1950”. Para Liliane, “pensar a acumulação dessa outra perspectiva, que é a paixão por guardar, é a nossa chave principal. Porque quando a gente guarda, a gente tem a possibilidade de deixar pistas da nossa vida de uma forma que outras pessoas possam reconstruir essas trajetórias”.
Trajetórias Femininas: Nery, Alice e Maria Helena
O arquivo não conta apenas a história de Nery. Ele também ilumina as vidas de sua mãe, Maria Helena Rezende da Silva, uma trabalhadora doméstica e lavadeira que lutou para que suas filhas tivessem oportunidades, e de sua irmã, Alice Rezende. Nery trabalhou como balconista e fotógrafa amadora, enquanto Alice se destacou como artista, atuando no Teatro Experimental do Negro e no cinema. Partes das trajetórias dessas três mulheres podem ser reconstituídas a partir dos registros que Nery guardou a partir de 1948.
A Cena Cultural Negra e a Invisibilização de Talentos
Um dos aspectos mais reveladores do arquivo é o dossiê de Alice Rezende. Diários, recortes de jornais, roteiros anotados e outros documentos de Alice oferecem pistas sobre o universo do teatro negro na São Paulo de meados do século 20. Liliane Braga encontrou, por exemplo, um diário de Alice de 1954 com anotações sobre suas participações em produções de rádio do Teatro Experimental do Negro.
Esses documentos são cruciais porque a participação de artistas negros em produções da indústria do entretenimento da época era frequentemente invisibilizada. Alice, por exemplo, atuou no filme “Veneno” (1952), da Companhia Cinematográfica Veracruz, mas seu nome não constava nos créditos. “O que acontece é que a gente sabe que ela atuou porque ela deixou esse arquivo e porque esse arquivo veio parar num lugar onde pesquisas são feitas”, explica Liliane. Alice Rezende, que faleceu jovem aos 27 anos, foi uma atriz de sucesso e uma das estrelas do Teatro Experimental do Negro, cujo programa na Rádio São Paulo era líder de audiência.
Museu do Ipiranga: Uma Nova Perspectiva da História
A acolhida do arquivo de Nery Rezende é resultado de um processo de reestruturação do Museu do Ipiranga, iniciado nos anos 1990. Tradicionalmente, o museu, como muitos outros, privilegiou a história das elites, que tinham mais meios de acumular e preservar seus legados. A professora Solange Lima afirma que essa reestruturação abriu a perspectiva de que “fazer história não se trata de fazer história das elites, mas que a gente pudesse ter representada no nosso acervo uma maior diversidade. Não só de classe social, mas também de gênero, de pessoas ligadas a distintas atividades na sociedade e também de estratos mais populares”. Graças à paixão por guardar de Nery Rezende e à visão renovada do museu, histórias antes silenciadas começam a ser contadas.
Fonte: jornal.usp.br
