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"title": "Lacerba: A Revista Futurista de Florença que Revolucionou a Arte do Século 20 e Moldou o Modernismo Brasileiro, Revelada em Livro da USP",
"subtitle": "Professora Annateresa Fabris, da USP, desvenda em nova obra a trajetória e o impacto de 'Lacerba', publicação italiana que, entre 1913 e 1915, desafiou o tradicionalismo e influenciou nomes como Mário de Andrade.",
"content_html": "<p>Um mergulho profundo na história da arte do século 20 é o que propõe o livro recém-lançado pela Editora da USP (Edusp), "Lacerba e o Futurismo Florentino". De autoria da professora Annateresa Fabris, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a obra de 392 páginas explora a trajetória da revista italiana "Lacerba", uma publicação efêmera, mas de impacto monumental, que circulou em Florença entre 1913 e 1915 e deixou sua marca no cenário artístico, inclusive no Modernismo brasileiro.</p>nn<h3>O Nascimento de uma Revolução Artística</h3>n<p>A gênese de "Lacerba" remonta à insatisfação de figuras como Giovanni Papini (jornalista, crítico e escritor) e Ardengo Soffici (poeta, crítico, pintor e escultor) com o espaço limitado para arte e cultura na revista "La Voce", também de Florença. Annateresa Fabris destaca Papini como um precursor do futurismo italiano, mesmo antes da fundação oficial do movimento por Filippo Tommaso Marinetti em 1909. Papini clamava por uma renovação cultural profunda, protestando contra o culto ao passado e exaltando a cidade moderna e inovações tecnológicas.</p>n<p>Soffici, por sua vez, engajou-se em uma campanha pela modernização da arte italiana, valorizando artistas que buscavam a "italianidade". Ele via em Paul Cézanne um modelo e promovia figuras como o escultor Medardo Rosso. Soffici também provocou o establishment artístico com artigos surpreendentes sobre Henri Rousseau, elogiando a "arte inculta", e atacando o Louvre como um "túmulo" e a "insossa" Mona Lisa. A proibição, em 1911, de reproduções de obras de Picasso e Braque em um artigo de Soffici na "La Voce" foi o estopim para que ele, Papini e outros colaboradores decidissem criar uma publicação independente: "Lacerba".</p>nn<h3>O Significado por Trás do Nome e a Essência da Revista</h3>n<p>O nome "Lacerba" não foi escolhido ao acaso. A pesquisadora Annateresa Fabris revela que ele evoca o tratado científico "L’ Acerba", de Cecco d’Ascoli, uma obra crítica à "Divina Comédia" e que abordava de forma enciclopédica diversas questões. A oscilação na grafia do nome da revista apontava para essa fonte de inspiração, que se tornou sinônimo de um espírito de contestação e busca pelo conhecimento.</p>n<p>A partir de 1º de janeiro de 1913, "Lacerba" começou a circular quinzenalmente, defendendo a liberdade e a autonomia da arte, uma literatura fragmentária e as figuras do gênio e do super-homem. Rapidamente, a revista atraiu a atenção do público e de jovens intelectuais florentinos. Ela se caracterizava pela "polêmica violenta contra a cultura e os hábitos da burguesia, contra o conformismo individual e coletivo, aliando um antitradicionalismo extremo com um nacionalismo exacerbado", explica Fabris. Esse aspecto se intensificou a partir de agosto de 1914, quando "Lacerba" adotou uma postura intervencionista, exaltando a guerra e atacando os defensores da neutralidade italiana no primeiro conflito mundial.</p>n<p>A revista contou com colaboradores assíduos como Umberto Boccioni, embora nem sempre suas ideias coincidissem com as de Papini, como evidenciado pela polêmica de 1914 sobre o papel da obra de arte nas vanguardas. Obras de Boccioni, como "Formas Únicas de Continuidade do Espaço", são hoje parte do acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, mas ele não participou da mostra de pintura promovida por "Lacerba" em 1913.</p>nn<h3>O Fim de um Ciclo e o Legado Duradouro</h3>n<p>"Lacerba" interrompeu suas publicações em 22 de maio de 1915, dois dias antes da entrada da Itália na guerra. Segundo a professora Fabris, a revista acreditava ter alcançado seus objetivos: a reafirmação da cultura latina, a denúncia do imperialismo germânico e a finalização do processo de unificação da Itália. Havia a percepção de que a revista, cada vez mais política e engajada na causa da guerra, não tinha mais razão de ser como uma publicação cultural.</p>n<p>Os animadores da revista também se engajaram diretamente no conflito: Soffici partiu voluntário, Palazzeschi foi convocado e Papini, dispensado por miopia, manifestou arrependimento posterior pela exaltação da guerra. Apesar de seu impacto, o futurismo florentino e o papel de "Lacerba" não são amplamente abordados na Itália. Foi o interesse pelo Modernismo brasileiro que levou Annateresa Fabris a se aprofundar nesse tema.</p>nn<h3>Lacerba e a Gênese do Modernismo Brasileiro</h3>n<p>É inegável a influência de "Lacerba" e do futurismo florentino no Modernismo brasileiro. Annateresa Fabris argumenta que o Modernismo adotou as técnicas propagandísticas de Marinetti, como na Semana de Arte Moderna, mas não sua plataforma estética radical. Para São Paulo, que mal iniciava seu horizonte tecnológico, um "futurismo moderado" era mais adequado. Menotti Del Picchia, por exemplo, defendia uma "arte purificada" inspirada em Soffici, buscando a libertação do passado e a construção de uma nova arte marcada pela "máxima liberdade dentro da mais espontânea originalidade".</p>n<p>A polêmica entre Papini e Boccioni foi determinante para a configuração do "futurismo paulista". Mário de Andrade, como evidenciado em seu exemplar de "L’Esperienza Futurista", repudiava a "materialidade bruta" das tendências modernas, alinhando-se com a visão de Papini. Em Soffici e Papini, Mário de Andrade encontrou elementos que se coadunavam com sua ideia de arte moderna: atenta às transformações da modernidade, mas sem desprezar o passado em bloco, avessa à "modernolatria" e a uma concepção mecânica e materialista da vida. Os literatos paulistas, assim como os florentinos, interpretaram a pregação antipassadista de Marinetti mais como um repertório temático do que uma revolução antropológica.</p>n<p>A pesquisa para "Lacerba e o Futurismo Florentino" durou quase dois anos e foi realizada integralmente na Itália. A descoberta da conexão entre o futurismo florentino e o Modernismo brasileiro surgiu por acaso, a partir de um pedido de esclarecimento de sua irmã sobre conceitos de Ardengo Soffici. Essa revelação levou a professora a mudar o foco de sua tese de doutorado, dedicando-se a desvendar as complexas relações entre os dois movimentos e a resgatar a importância de uma revista que, em poucos anos, redefiniu os rumos da arte no século 20.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br
