Transformação Global da Ciência: USP Alerta para a Urgência da Segurança em Pesquisa e Seus Impactos na Colaboração Internacional e Integridade Acadêmica

Transformação Global da Ciência: USP Alerta para a Urgência da Segurança em Pesquisa e Seus Impactos na Colaboração Internacional e Integridade Acadêmica

O novo paradigma de ‘research security’ exige adaptação de universidades e pesquisadores para equilibrar abertura científica com proteção de dados e propriedade intelectual em um cenário geopolítico complexo.

A ciência, assim como o mundo, está em constante e acelerada transformação. Nos últimos anos, a governança científica tem incorporado novos paradigmas, impulsionada pela crescente complexidade da sociedade e as mudanças geopolíticas. Essa evolução tem levado universidades e instituições de pesquisa a repensar a maneira como conduzem e protegem o conhecimento.

O Que É Segurança em Pesquisa?

Um exemplo claro dessa mudança é a participação da Universidade de São Paulo (USP) em eventos como o Academic & Security Counter Exploitation (ASCE) Annual Seminar, que reúne representantes de universidades, agências governamentais e especialistas para discutir a proteção da pesquisa científica. Nesse contexto, emerge o conceito de research security, ou segurança em pesquisa.

Diferente da research integrity, que se concentra na conduta ética e na integridade científica, a research security visa proteger a pesquisa contra interferências indevidas e assegurar o uso responsável de seus resultados. Isso inclui salvaguardar dados, prevenir a apropriação indevida de propriedade intelectual e controlar a transferência de conhecimento com potencial de uso dual (civil e militar).

Impacto nas Colaborações Internacionais

Pesquisadores brasileiros com colaborações internacionais já percebem a maior cautela de parceiros em instituições americanas, canadenses e europeias. Há uma preocupação crescente com a segurança de dados, a proteção institucional e a transparência nas relações de pesquisa. Essas exigências são reflexo de políticas internacionais robustas, como a Recomendação C/2024/3510 da União Europeia, o Memorando Presidencial NSPM-33 dos Estados Unidos e as diretrizes do Canadá, que estabelecem princípios e listas de tecnologias e instituições sensíveis para a cooperação científica.

Essas medidas são cruciais para evitar vazamento de informações, roubo de propriedade intelectual e a utilização indevida de conhecimentos científicos, que podem comprometer não apenas o trabalho individual dos pesquisadores, mas também a segurança e a soberania de nações.

O Dilema da Ciência Aberta

O cenário atual tensiona o paradigma de governança científica das últimas décadas, especialmente o movimento da Ciência Aberta (Open Science), que floresceu após a Guerra Fria e até a pandemia de 2020. A Ciência Aberta valoriza a transparência e o compartilhamento como pilares da prática científica, influenciando até mesmo a inovação com o conceito de Open Innovation. No entanto, a nova realidade geopolítica e tecnológica exige um reequilíbrio.

A proteção da pesquisa não é apenas uma questão econômica ou de competitividade; ela é fundamental para a defesa da liberdade acadêmica e dos valores democráticos. Interferências mal-intencionadas, roubo de dados ou assédio sistemático corroem o empreendimento científico e limitam a capacidade de pensar livremente, um valor central para instituições como a USP.

A Resposta da USP e o Futuro da Ciência

Sensível a essas transformações, a Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI) da USP, por meio do Escritório de Integridade e Proteção à Pesquisa, está promovendo diversas atividades para a comunidade acadêmica. Em abril, será realizado um USP Lecture dedicado ao tema, e em março, está previsto o lançamento de um curso introdutório sobre integridade científica e segurança em pesquisa. Essas iniciativas visam ampliar o conhecimento e fortalecer a cultura de proteção da pesquisa na universidade.

Adaptar-se a este cenário global mais complexo é inevitável. Para preservar os princípios da Ciência Aberta, como a colaboração internacional e a liberdade acadêmica, é necessário integrá-los à segurança em pesquisa, à integridade científica e à avaliação responsável. Este equilíbrio é essencial para promover um ambiente científico que seja ao mesmo tempo aberto, íntegro e institucionalmente responsável. Caso contrário, a comunidade científica poderá ver seu espaço de atuação restringido ou, pior, falhar em proteger os valores que sustentam a própria busca pelo conhecimento.

Fonte: jornal.usp.br

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