A endometriose, uma doença inflamatória crônica, afeta uma parcela significativa da população feminina no Brasil, impactando entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva. Esse período, que se estende da primeira menstruação (menarca) até a menopausa, pode ser marcado por dores intensas na região pélvica e, em muitos casos, dificuldades para engravidar. Diante desse cenário, campanhas como o Março Amarelo são cruciais para a conscientização e o incentivo ao diagnóstico precoce.
Sérgio Podgaec, professor do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP e médico assistente do Hospital das Clínicas, explica a condição: “Endometriose é uma doença que acomete uma de cada dez mulheres no período da vida em que a mulher menstrua. Ela acontece quando o tecido que fica dentro do útero, que se chama endométrio, aparece fora do útero”.
O Que é a Endometriose e Suas Causas?
A endometriose ocorre quando o tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o interior do útero, cresce em outras partes do corpo, como ovários, trompas uterinas, peritônio e até mesmo em órgãos mais distantes. Embora as causas exatas ainda sejam objeto de estudo, a teoria mais aceita é a da Menstruação Retrógrada, ou Teoria de Sampson.
Segundo Podgaec, essa teoria sugere que, durante a menstruação, parte do fluxo menstrual, em vez de sair completamente pela vagina, retorna pelas trompas uterinas para a cavidade abdominal. “Esse tecido, que só devia sair, retorna pelas trompas e cai dentro da cavidade abdominal”, afirma o professor. Contudo, o refluxo menstrual é comum e ocorre em praticamente todas as mulheres, mas apenas uma em cada dez desenvolve endometriose. Isso indica que outros fatores estão envolvidos, como alterações imunológicas, inflamatórias, hormonais e uma predisposição genética, com um padrão de hereditariedade observado em famílias.
Sintomas e o Desafio do Diagnóstico Lento
A identificação da endometriose pode ser um processo demorado, o que agrava o sofrimento das pacientes. Os sintomas são variados e podem ser debilitantes. Os principais incluem dores na região pélvica e infertilidade. As dores podem se manifestar de diversas formas:
- Cólicas menstruais intensas.
- Dor pélvica fora do período menstrual.
- Dor durante a relação sexual (dispareunia).
- Dor ao evacuar ou urinar, especialmente durante a menstruação.
A dificuldade para engravidar é outro sintoma frequente, afetando a qualidade de vida e os planos reprodutivos de muitas mulheres. A campanha do Março Amarelo visa justamente acelerar o diagnóstico, orientando sobre a identificação desses sinais e a busca por ajuda médica.
Opções de Tratamento e Suporte Multidisciplinar
O tratamento da endometriose é individualizado e depende dos objetivos da paciente, seja o alívio da dor ou o desejo de engravidar. As abordagens incluem:
- Tratamento Hormonal: Pílulas anticoncepcionais, DIU medicado com hormônio e outros tipos de anticoncepcionais são eficazes para controlar a dor. É importante notar que este método não é indicado para mulheres que desejam engravidar, pois impede a concepção. O objetivo principal é o manejo dos sintomas de dor, e não a diminuição das lesões.
- Reprodução Assistida: Para mulheres que enfrentam dificuldades para engravidar, técnicas como a fertilização in vitro (FIV) podem ser uma solução.
- Cirurgia: Em casos específicos e com indicação médica, a cirurgia pode ser realizada para remover os focos de endometriose.
Além dos tratamentos médicos, um suporte multidisciplinar é fundamental. Podgaec ressalta a importância de abordagens complementares, como fisioterapia pélvica, ajuste na dieta, apoio psicológico e uso de medicações analgésicas. Essas medidas podem auxiliar significativamente na diminuição dos sintomas, especialmente a dor, e melhorar a qualidade de vida da paciente.
Endometriose: Uma Doença Benigna, Mas que Exige Atenção
Uma preocupação comum entre as mulheres com endometriose é a possibilidade de desenvolvimento de câncer. O professor Sérgio Podgaec esclarece que a endometriose é uma doença benigna e sua associação com o câncer é extremamente rara e restrita a situações muito específicas. “O aparecimento de tumores pela endometriose é muito infrequente e a gente não pode dizer isso de forma geral, são situações muito específicas e não comuns, e é importante reforçar isso para não assustar as pacientes que têm endometriose. A paciente não tem que ter essa superpreocupação”, enfatiza.
Apesar de ser benigna, a endometriose exige acompanhamento contínuo e atenção. A conscientização promovida por campanhas como o Março Amarelo é essencial para desmistificar a doença, incentivar a busca por diagnóstico e garantir que as mulheres recebam o tratamento e o suporte adequados para viverem com mais qualidade de vida.
Fonte: jornal.usp.br
