Conhecido por ser o principal vilão por trás do resfriado comum, o rinovírus é um dos agentes virais mais frequentes na infância, muitas vezes associado a quadros leves. Contudo, ele também pode desencadear infecções respiratórias recorrentes e agravar doenças como asma, sinusite e otite média. Uma pesquisa inovadora, conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, vem para mudar radicalmente essa percepção, revelando que o vírus é capaz de se alojar e se replicar ativamente em células das amígdalas e adenoides – estruturas cruciais do sistema imunológico infantil.
O estudo aponta que, mesmo na ausência de qualquer sintoma respiratório, o rinovírus pode permanecer ativo nesses tecidos. Essa descoberta levanta a hipótese de que as amígdalas funcionem como uma espécie de “reservatório viral”, um mecanismo que pode explicar tanto a recorrência de infecções respiratórias quanto a detecção prolongada do vírus em secreções, mesmo muito depois do desaparecimento dos sintomas clínicos.
Quebra de Paradigmas: O Reservatório Inesperado
Tradicionalmente, o rinovírus é descrito como um vírus que infecta e destrói as células epiteliais das vias aéreas superiores durante sua replicação. Por essa razão, a ideia de sua permanência ativa e prolongada em tecidos do sistema imunológico, como amígdalas e adenoides, era considerada improvável. “Os rinovírus são vírus líticos para células epiteliais respiratórias, ou seja, eles destroem a célula ao se replicarem. Não seria esperado que seu material genético permanecesse por longos períodos nos tecidos do sistema imunológico que ficam em amígdalas e adenoides”, explica o professor Eurico Arruda, do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, que orientou o trabalho.
Motivados por achados anteriores que detectaram material genético viral em amígdalas e adenoides de crianças assintomáticas, os pesquisadores aprofundaram a investigação. O objetivo era descobrir se o que restava era apenas um “vestígio genético” ou se o vírus permanecia biologicamente ativo e infeccioso nesses tecidos.
A Ciência por Trás da Descoberta
Publicado no Journal of Medical Virology, o estudo analisou amostras de amígdalas palatinas, adenoides e secreções respiratórias de 293 crianças que foram submetidas à adenoamigdalectomia – uma cirurgia indicada principalmente para casos de obstrução respiratória ou infecções recorrentes. As amostras foram doadas com o consentimento dos responsáveis, exclusivamente para fins de pesquisa.
A equipe utilizou uma combinação de técnicas avançadas de biologia molecular e celular. Após a detecção inicial do material genético viral por RT-PCR em tempo real, as amostras positivas para rinovírus foram submetidas a imuno-histoquímica (para visualizar proteínas virais), hibridização in situ cromogênica (para identificar a replicação do RNA viral), citometria de fluxo (para caracterizar os tipos celulares infectados) e, crucialmente, isolamento viral em cultura de células. Este último método confirmou que o vírus presente era de fato capaz de infectar novas células, provando sua persistência infecciosa. “Essas abordagens combinadas nos permitiram demonstrar não apenas a presença do vírus, mas sua replicação ativa e a produção de vírus infecciosos dentro dos tecidos amigdalianos”, detalha o pesquisador.
Linfócitos Também São Alvos do Rinovírus
Um dos achados mais surpreendentes da pesquisa foi a identificação dos tipos celulares infectados. Além das células epiteliais da superfície das amígdalas, o rinovírus também foi encontrado infectando linfócitos T CD4 e linfócitos B – células fundamentais da resposta imune adaptativa. “Foram identificados linfócitos T auxiliares e linfócitos B infectados, o que não era esperado. Isso sugere que o rinovírus consegue infectar células de vida longa sem provocar sua destruição imediata”, explica Arruda.
Essa capacidade de infectar células de longa duração sem destruí-las imediatamente pode ser a chave para a estratégia do vírus de permanecer no organismo por períodos estendidos, driblando a resposta imunológica clássica. O estudo identificou as três espécies conhecidas de rinovírus (A, B e C), com um leve predomínio da espécie A.
Impactos Clínicos e Próximos Passos
Todas as crianças participantes do estudo estavam assintomáticas no momento da cirurgia e não apresentavam sinais de infecção respiratória há pelo menos um mês. Ainda assim, o vírus ativo foi detectado em uma parcela significativa das amostras. Embora o estudo seja transversal e não permita afirmar a persistência do mesmo vírus por anos no tecido de um único paciente, a alta frequência de detecção em crianças assintomáticas sugere infecções prolongadas.
Apesar da infecção de linfócitos, a pesquisa não encontrou sinais evidentes de inflamação local intensa, o que indica que o rinovírus pode ter estratégias para escapar da resposta imune quando infecta células imunológicas, diferente do que ocorre no epitélio respiratório. Os achados ampliam o entendimento sobre infecções respiratórias recorrentes. “Se os rinovírus infectam células linfoides de longa duração com produção de vírus infecciosos, é possível que, em certas situações, haja excreção viral em secreções respiratórias”, afirma o pesquisador.
Embora ainda não se possa afirmar se essa persistência causa doença em pessoas com sistema imune saudável, o mecanismo pode ter um impacto significativo em pacientes com doenças de base, como asma, otite média crônica, sinusite crônica e casos de imunossupressão. O grupo de pesquisa da USP já planeja estudos longitudinais para acompanhar crianças no pós-operatório que apresentavam infecção ativa nas amígdalas, além de investigar os mecanismos moleculares que permitem essa infecção prolongada sem destruição celular.
Fonte: jornal.usp.br
