O Nordeste Sob Estigma: Tese da USP Revela Como Imprensa Paulista Liga a Região ao Atraso e à Irracionalidade Política Desde 1989
Estudo de doutorado da USP desmascara preconceito midiático e as raízes históricas da deslegitimação política da região
A imagem do Nordeste no cenário político brasileiro é frequentemente distorcida por estereótipos de atraso e irracionalidade, uma constatação que ganha embasamento científico na tese de doutorado “Conheço o Meu Lugar – Paulistanidade e Estigmatização Nordestina nas Eleições Presidenciais [1989-2022]”, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP pela pesquisadora Marina Chaves de Macedo Rego. O trabalho revela como parte da imprensa tradicional paulista contribui para a perpetuação desses preconceitos históricos, deslegitimando o exercício político da população nordestina.
A Mídia e a Construção do Estereótipo
A pesquisa de Marina Chaves rastreou as últimas nove eleições presidenciais do Brasil, de 1989 a 2022, analisando reportagens dos jornais Diário de Pernambuco, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo. Os resultados são alarmantes: em 50% das citações sobre o Nordeste nos veículos paulistas, sua imagem é associada a estereótipos como seca e falta de instrução. A cada cinco menções à região, uma carrega uma conotação negativa, reforçando preconceitos arraigados e minando a credibilidade do eleitorado.
A tese aponta que o eleitor nordestino é frequentemente retratado como menos racional politicamente, com seus votos sendo atribuídos a políticas de distribuição de renda ou assistência social. Das 1.080 notícias examinadas, 69% relacionam o Nordeste ao Partido dos Trabalhadores (PT), muitas vezes de forma depreciativa. Marina observa que “mesmo quando o Nordeste não votava majoritariamente no PT, por exemplo, já se tentava associar o Nordeste ao PT”, uma estratégia que persistiu mesmo quando o candidato petista vencia em outras regiões.
As Raízes Históricas do Preconceito
O preconceito contra o Nordeste não é um fenômeno recente, mas tem suas raízes fincadas na história econômica do Brasil. A pesquisadora explica que a decadência da economia açucareira no Nordeste e a ascensão do café no Sudeste, no final do século 19, alteraram a concentração de renda no país. São Paulo, então, emergiu como sinônimo de industrialização, atraindo imigrantes europeus brancos, em uma política estatal de “embranquecimento” da população nas regiões em expansão. Enquanto isso, o Nordeste permaneceu com uma população predominantemente negra e ex-escravizada.
Essa divisão histórica levou São Paulo a ser visto como o futuro do desenvolvimento, enquanto o Nordeste foi estigmatizado como uma região “colada ao passado” a ser superada. Essa distorção é visível, segundo Marina, no uso pejorativo da palavra “baiano” para se referir indiscriminadamente a todos os migrantes nordestinos, além de negros e indígenas, frequentemente marginalizados pela pobreza.
Estigma e Deslegitimação Política
A tese de Marina Chaves de Macedo Rego ressalta que a estigmatização da palavra “nordestina” como prática política serve para inferiorizar e deslegitimar. A pesquisadora aponta que essa foi uma estratégia central durante o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. “Simbolizar um exercício político como nordestino é capaz de diminuir esse exercício político, de tentar deslegitimá-lo em movimentos conservadores. E isso foi possível em âmbito nacional quando houve um golpe institucional em 2016”, afirma.
A pesquisa conclui que não existem populações superiores a outras, e a ideia de São Paulo como a “locomotiva do País” é uma construção histórica que busca conferir superioridade a uma parcela rica e branca da população paulista. Marina enfatiza que tanto a população paulista quanto a nordestina são heterogêneas, e que tais ideias são fruto de construções históricas baseadas em profundas desigualdades raciais e de classe, distorcendo a complexidade e a riqueza cultural de ambas as regiões.
Fonte: jornal.usp.br
