A Faculdade de Educação (FE) da USP será palco, no dia 19 de março, às 14 horas, de um evento que promete unir rigor acadêmico e um profundo senso de reparação histórica. O lançamento do livro e a abertura da exposição Caetanistas Negros: outros que honram a galeria dos pretos do Brasil trarão à luz o resultado de uma pesquisa minuciosa que identifica e celebra o protagonismo de figuras negras que marcaram a história da Escola Caetano de Campos, uma das instituições de ensino mais emblemáticas de São Paulo.
Organizado pela pesquisadora Ariadne Ecar, pós-doutora pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), em parceria com o Núcleo de Memória e Acervo Histórico (NUMAH) do Centro de Referência em Educação Mario Covas, o projeto destaca 11 personalidades negras que transitaram pela escola entre o início da República e a década de 1970. O evento terá transmissão online, ampliando o acesso a essa importante iniciativa.
Legados Revelados: Quem Foram os Caetanistas Negros?
Entre os nomes resgatados pela pesquisa, encontram-se figuras de relevância nacional cujas vozes e legados foram, por muito tempo, invisibilizados. Destacam-se Eduardo de Oliveira, o primeiro vereador negro da capital paulista; a bióloga Rosa Maria Tavares Andrade; e Benedicto Galvão, o primeiro presidente negro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo.
A Escola Caetano de Campos, fundada em 1846, consolidou-se como um modelo pedagógico para o Brasil, frequentemente associada no imaginário paulista a uma elite branca e abastada. Contudo, a pesquisa de Ariadne Ecar desmistifica essa percepção. “Ficou no imaginário paulista que a Caetano de Campos só admitia pessoas da elite paulista, o que não tem comprovação nenhuma”, afirma a pesquisadora. Ela ressalta que, apesar da infraestrutura de ponta, a instituição era pública e aberta à diversidade social. “Não conseguimos encontrar nada que pudesse dizer que essa instituição não aceitava alunos pobres ou negros”, complementa.
A Semente da Memória e a Voz da Experiência
A inspiração para este resgate histórico partiu da percepção de Maria Rejane Germano, funcionária pública que atuou no prédio da Praça da República por quase três décadas e idealizadora da exposição. “Trabalhei no prédio da Caetano de Campos quase 30 anos e não sabia da história dos afrodescendentes que tinham estudado lá”, relata Rejane, motivada a investigar a presença negra nesse espaço tido como elitizado.
A exposição não se limita a painéis estáticos. Segundo Clayton Policarpo, membro da equipe de organização, “além dos banners, teremos vídeos de entrevistas com dois caetanistas. Foram entrevistas que realizamos dentro do projeto de história oral, e eles relatam a vivência deles”. Diógenes Nicolau Lawand, do NUMAH, destaca o impacto emocional desses depoimentos: “Nós presenciamos muitos professores e professoras se emocionando, porque viam aquele relato daquele caetanista negro, eles se identificavam”.
Educação Antirracista: Um Compromisso Contínuo
A iniciativa dos ‘Caetanistas Negros’ é parte integrante da proposta Todo Dia é Dia de Antirracismo, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. O objetivo central é combater o racismo estrutural por meio da valorização da memória cotidiana, indo além de datas comemorativas específicas.
Diógenes Nicolau Lawand explica que a exposição e o livro são apenas as primeiras ações de um esforço contínuo. “Esse é o guarda-chuvão. A exposição é uma das ações; o livro digital é outra ação. Esperamos desenvolver outras ações vinculadas a essa questão da educação antirracista”, pontua, reforçando o caráter permanente do projeto.
Acesso à História: Livro Digital e Exposição Renovada
A exposição na USP traz atualizações de dados e uma nova dinâmica em comparação com sua primeira montagem. Devido à complexidade logística, foram produzidos fac-símiles (cópias fiéis) de registros históricos que atestam a passagem desses intelectuais pela escola, garantindo a autenticidade das informações.
O livro, que reúne capítulos escritos por diversos pesquisadores sobre os caetanistas identificados, já está disponível para acesso gratuito no Portal de Livros Abertos da USP. Mesmo antes do lançamento formal, a obra já registrava um interesse significativo, com mais de 40 downloads nos primeiros dias de publicação.
Serviço:
Evento: Lançamento do livro e exposição Caetanistas Negros
Data: 19 de março
Horário: 14 horas
Local: Auditório Professora Doutora Lisete Arelaro, Faculdade de Educação (FE) da USP
Livro digital: Disponível no Portal de Livros Abertos da USP
Entrada: Gratuita e aberta ao público geral
Fonte: jornal.usp.br
