As regiões polares do planeta estão em um ponto crítico, com o derretimento acelerado das geleiras revelando os impactos crescentes das mudanças climáticas. Desde 1976, o mundo perdeu cerca de 9.179 gigatoneladas de gelo, um volume que equivale a aproximadamente 9 mil quilômetros cúbicos de água. Para se ter uma dimensão, essa quantidade é similar ao que o Rio Amazonas despeja no Oceano Atlântico ao longo de 470 dias. O mais alarmante é que quase 98% dessa perda ocorreu após 1990, com 41% concentrados entre 2015 e 2024, indicando uma perigosa aceleração do fenômeno.
Degelo Acelerado: Um Alerta Global
O professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) e da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, explica que o gelo funciona como um regulador térmico essencial para o planeta. “Ele reflete parte da radiação solar de volta ao espaço, ajudando a manter o equilíbrio energético. Quando esse gelo desaparece, superfícies mais escuras, como o oceano ou o solo exposto, absorvem mais calor, intensificando o aquecimento global. Além disso, o degelo altera a circulação oceânica e atmosférica, contribuindo diretamente para a elevação do nível do mar e ampliando riscos climáticos e socioeconômicos em escala global”, afirma.
Nas últimas décadas, o aquecimento do ar e dos oceanos, impulsionado pelas emissões de gases de efeito estufa, tem sido o principal catalisador desse derretimento. Um fator crucial é o efeito de retroalimentação: à medida que o gelo e a neve derretem, expõem superfícies mais escuras que absorvem mais calor. Esse calor adicional é transferido para a atmosfera, acelerando ainda mais o derretimento de outras camadas de gelo. Mudanças nas correntes oceânicas e eventos climáticos extremos também contribuem para essa taxa crescente de perda.
Consequências Diretas: Elevação do Nível do Mar
Os dados da Nasa e da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) são claros: desde 1900, o nível médio global do mar subiu entre 20 e 23 centímetros. O ritmo de elevação, que hoje varia entre 3 e 4 milímetros por ano, tem se intensificado. Grande parte desse derretimento concentra-se na Antártica e na Groenlândia, regiões que armazenam vastas reservas de água doce congelada e são cruciais para o equilíbrio climático do planeta.
“Se esses mantos de gelo se desestabilizam, o impacto no nível do mar é muito significativo. O derretimento da Groenlândia já contribui diretamente para a elevação dos oceanos, enquanto a Antártica possui potencial para elevar o nível do mar em vários metros ao longo de séculos. Além disso, essas regiões influenciam as correntes oceânicas globais e os padrões climáticos, o que significa que mudanças ali podem afetar o clima em diferentes partes do planeta”, destaca Côrtes. A comparação com o volume do Rio Amazonas serve para ilustrar que o degelo não é um fenômeno distante, mas uma ameaça global, capaz de inundar áreas extensas e afetar a infraestrutura de cidades costeiras.
Impactos Longe dos Polos: O Cenário Brasileiro
Mesmo distante das regiões polares, o Brasil não está imune aos efeitos do degelo. Segundo o professor Côrtes, os impactos chegam de forma indireta, mas significativa. “A elevação do nível do mar pode afetar cidades costeiras brasileiras, o que já vem acontecendo e ampliando os riscos de erosão e inundações em áreas densamente povoadas. Também faz com que ocorram mudanças na circulação oceânica e atmosférica que podem influenciar regimes de chuva na América do Sul, afetando agricultura, geração hidrelétrica e disponibilidade de água”, explica.
O especialista conclui que, em um país cuja economia depende fortemente do agronegócio e da energia elétrica, as alterações climáticas globais tendem a aumentar a frequência de eventos extremos e ampliar a vulnerabilidade econômica, tornando o degelo polar uma preocupação global com reflexos diretos na realidade brasileira.
Fonte: jornal.usp.br
