A universidade brasileira, assim como instituições de ensino superior em escala global, enfrenta um cenário de crescente incerteza e hostilidade. Essa percepção, que já permeava a gestão reitoral da Universidade de São Paulo (USP) entre 2022 e 2026 ao denunciar um “tempo de desumanidade e desinformação” e o “obscurantismo” como alvo, foi ecoada na proposta da gestão 2026-2030, que destacou “momentos de incerteza, hostilidade e ameaças no cenário internacional e em nosso país”.
Nesse contexto, a trilogia recém-publicada pelo professor Naomar de Almeida Filho, reconhecido educador humanista e gestor universitário, oferece uma reflexão profunda sobre o lugar e o papel da universidade. O segmento central de sua obra, “Universidade: Resposta diante do cerco”, dialoga diretamente com as apreensões expressas pelas plataformas reitorais da USP, propondo um fio condutor que parte da ideia de utopia, inspirada em Robert Hutchins e seu livro “The University of Utopia”, de 1953.
O Cerco à Universidade e as ‘Topias’ do Conhecimento
O professor Naomar de Almeida Filho, que foi titular da Cátedra Alfredo Bosi de Educação Básica do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, mergulha em um glossário de vocábulos afins da utopia. Além de distopia (um futuro indesejável) e heterotopia (lugares reais que são outros), destaca a ‘retrotopia’, que expressa o anseio por um passado idealizado e fictício, ajudando a compreender tendências regressistas que reemergem em diversas sociedades.
O conceito central, contudo, é a ‘protopia’, um neologismo proposto pelo autor há duas décadas, no contexto da “Universidade Nova” – uma concepção de reforma que culminou no Manifesto dos Reitores de Universidades Federais Brasileiras em 2006. A protopia, em contraposição à utopia (lugar nenhum), surge como um projeto realista de transformação, focado em melhorias incrementais permanentes. Naomar defende que a universidade não pode se conceber como um “quarto poder soberano, isolado e autossuficiente”, nem ser “espectadora do colapso civilizatório”.
Modelos Históricos e os Desafios da Transformação
O artigo de Naomar apresenta um esquema que contrapõe a protopia a três modelos de universidade. O primeiro é o ‘utópico’, do século 19, baseado na autonomia institucional, liberdade acadêmica e centralidade da pesquisa, exemplarmente materializado na Universidade de Berlim – modelo que inspirou as chamadas “universidades de pesquisa”, como a USP. O segundo é o ‘atópico’, derivado da Reforma Bonaparte na França pós-revolucionária, caracterizado pela subordinação direta do ensino superior ao controle estatal. Esses modelos, inclusive, foram pensados como parte de “estratégias nacionais” em face de conflitos militares.
O terceiro modelo, este contemporâneo, é o ‘distópico’, que “ameaça a autonomia universitária, subordina o conhecimento às lógicas de mercado e fragiliza a universidade pública”. Naomar aponta o projeto “Future-se”, da gestão federal 2019-2022, como um exemplo claro dessa visão, que se manifesta em nações com governos autoritários ou insólitos. O autor, contudo, lamenta a persistência de práticas arraigadas na universidade brasileira, citando o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) como uma “janela de oportunidade perdida”, por ter se resumido a “oferecer mais do mesmo”.
Protopia: Melhorias Incrementais e Inclusão Social
A proposta protópica para a universidade brasileira tem como base a “inclusão social e étnico-racial, por meio de reorganização curricular em ciclos formativos e fortalecimento do vínculo entre universidade, educação básica e desenvolvimento nacional”. Naomar reafirma os princípios da autonomia institucional e da liberdade acadêmica como condições indispensáveis ao desenvolvimento do ensino e da pesquisa, mesmo reconhecendo o desafio de aceitar a existência de um ente público autônomo em relação à instância que o financia.
A autonomia universitária plena, garantida pelo artigo 207 da Constituição Federal – que abrange as autonomias didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial –, é um pilar fundamental. A USP, por meio da Chefia de Gabinete do Reitor e do IEA, tem participado ativamente de um movimento nacional em defesa dessa autonomia, realizando um Ciclo Nacional de Seminários sobre o tema, que percorreu as cinco regiões do País.
Rumo à Tecno-Protopia e a Autonomia como Pilar
No terço final de sua reflexão, Naomar de Almeida Filho avança para uma proposta de “utopia esperançosa”: a ‘tecno-protopia’. Essa estratégia visa articular forças políticas e movimentos sociais em torno de um projeto de universidade pública verdadeiramente autônoma, comprometida com a competência sociotécnica, a soberania tecnológica, a emancipação de sujeitos epistêmicos e a sensibilidade eco-etno-social.
A evolução da protopia para a tecno-protopia é fundamentada também nas ideias de Silvio Meira, que aponta quatro diretrizes para a universidade manter sua respeitabilidade na era da inteligência artificial: recuperar a agência epistêmica, transformar a avaliação (focando no processo cognitivo), reafirmar a função pública onde a discordância é sagrada, e democratizar o conhecimento, entendido como a capacidade de pensar criticamente. Essa jornada, “da utopia à protopia e da protopia à tecno-protopia”, remete ao termo grego ‘tópos’ (lugar), questionando e redefinindo constantemente o lugar da universidade na sociedade.
Fonte: jornal.usp.br
