Projeto da USP no Butantã: Como o Jornalismo Comunitário da EJA Empodera Jovens e Adultos na Periferia de SP para Denunciar e Reivindicar Direitos

Projeto da USP no Butantã: Como o Jornalismo Comunitário da EJA Empodera Jovens e Adultos na Periferia de SP para Denunciar e Reivindicar Direitos

Iniciativa da pesquisadora Jade Castilho (ECA-USP) no Cieja Butantã capacita estudantes a transformar histórias de vida em pautas sobre vulnerabilidade, gênero e cidadania, utilizando a palavra como ferramenta política.

A máxima de Paulo Freire de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” ganha uma nova dimensão prática e tecnológica em São Paulo. No Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) do Butantã, uma pesquisa de mestrado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, desenvolvida por Jade Castilho, transformou estudantes da periferia em repórteres. O projeto News Cieja, que funcionou de março a dezembro de 2025 com três publicações, é o cerne da pesquisa “Ensinando em comunidade: intervenção educomunicativa no diálogo sobre gênero na educação de jovens, adultos e idosos”, e tem como objetivo principal ajudar os alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) a se reconhecerem como sujeitos políticos.

Jade Castilho, jornalista pela PUC-Campinas e licenciada em Educomunicação pela ECA-USP, trouxe sua experiência acadêmica e o engajamento com movimentos feministas para o Cieja Butantã. Sua proposta foi criar um espaço onde a escrita não fosse uma obrigação, mas um direito de resposta à realidade vivenciada pelos estudantes. Segundo Jade, “o projeto surgiu da vontade de aplicar a educomunicação em contextos de vulnerabilidade, transformando o ato de informar em uma ferramenta de cidadania”. O que inicialmente focava em letramento midiático e questões de gênero evoluiu para uma verdadeira redação comunitária, onde o News Cieja – nome escolhido pelos próprios alunos – passou a pautar as angústias e realidades do bairro.

Letramento Crítico e a Práxis da Educomunicação

O processo educativo do News Cieja adota uma metodologia de escrita colaborativa. Em encontros semanais, seis alunos fixos se reúnem para debater e pautar temas relevantes. A solidariedade intelectual é um pilar: estudantes com mais domínio da linguagem auxiliam os iniciantes em sua jornada de apropriação da escrita. A tecnologia também é uma aliada crucial, com notebooks cedidos ao projeto, os estudantes aprendem a diagramar o jornal no Word, desde a formatação de colunas até a inserção de fotos que eles mesmos capturam. Jade Castilho descreve o processo como uma via de mão dupla: “Eles ensinam sobre o território e eu facilito o acesso às ferramentas de comunicação”.

Voz e Denúncia: O Jornal como Ferramenta Política

As matérias publicadas no News Cieja vão além de exercícios literários; são registros de denúncias e celebrações do cotidiano. A principal pauta da primeira etapa foi a (i)mobilidade urbana, expondo a insegurança em pontos de ônibus escuros e cercados por matagal, além do impacto dos atrasos sistemáticos no acesso ao direito de estudar. Além das críticas ao poder público, o jornal também divulga eventos escolares, como colações de grau, e histórias de vida de funcionários e alunos. Para esses jovens e adultos, que muitas vezes tiveram o ciclo escolar interrompido por trabalho precoce, violência doméstica ou vulnerabilidade social, ver suas vozes estampadas nas paredes do Cieja é uma vitória política. O projeto demonstra que o letramento, quando mediado pelo pensamento crítico, é um poderoso antídoto contra a invisibilidade social.

O Impacto na Vida dos Estudantes

A aluna Josefa Lima, participante assídua da oficina, descreve a escola como um ambiente “acolhedor e familiar”. Ela relata a qualidade dos professores e a ausência de distinção no tratamento entre os alunos. “A gente aprendeu a ‘dar pauta’ de jornais, fazer entrevista e trocar ‘umas ideias’ diferentes do nosso cotidiano, porque eu trabalho em casa de família e estou voltando agora para os estudos”, conta Josefa. Ela também elogia a dedicação de Jade: “Foi bom! Ela [Jade] ensinou a gente a tirar fotos legais, a gente leu muitos livros sobre preconceito [de gênero]. A gente aprendeu a escrever melhor, mas a escola não tinha muito material, aí a gente improvisava. A Jade se entregou 100%”.

Consolidação e o Futuro de um Território de Resistência

O sucesso do News Cieja no Butantã é apenas o começo. Jade Castilho planeja aprofundar e consolidar o modelo de rodas de conversa educomunicativas em seu mestrado na ECA-USP, reafirmando o compromisso da universidade pública em atuar na ponta do sistema educacional. Ao transformar a revolta em texto e a indignação em manchete, o News Cieja se estabelece como um território de resistência. Nele, a conquista da escrita é, também, a conquista da cidadania, devolvendo aos seus repórteres a dignidade de quem compreende que a palavra é a ferramenta mais poderosa para exigir que a vida, nas periferias de São Paulo, seja tratada com o respeito que lhe é de direito.

Fonte: jornal.usp.br

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