Estudante da USP Cria Sonar Municipal: A Plataforma de Inteligência Artificial que Revela Políticas Públicas Eficazes para Transformar Cidades Brasileiras

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, encontrar políticas públicas bem-sucedidas implementadas em cidades distantes e adaptá-las à realidade local é um desafio constante para gestores municipais. Essa busca por soluções eficazes acaba de ganhar um poderoso aliado: o Sonar Municipal.

Criada por Thiago Ambiel, aluno do Bacharelado em Ciência de Dados e bolsista de Iniciação Científica do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, a plataforma web utiliza inteligência artificial para apoiar a gestão e a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências. A ferramenta promete facilitar a vida de prefeitos e secretários, oferecendo um “Google para leis municipais” com um diferencial crucial.

Desvendando o ‘Politiquês’ com Inteligência Artificial

Para usar o Sonar Municipal, o usuário simplesmente digita uma pergunta, como “Como diminuir evasão escolar no ensino médio?” ou “Como reduzir a violência urbana em bairros centrais?”. A inteligência artificial, então, busca em sua vasta base de dados por textos semanticamente parecidos, agrupa-os e faz recomendações de ação.

Um dos grandes trunfos da plataforma é a tradução do complexo “politiquês” presente nos textos de lei para frases objetivas e de fácil compreensão. Em vez de jargões técnicos, o gestor recebe sugestões claras como “Criar programa de combate à pichação” ou “Implantar iluminação em áreas de risco”, facilitando a identificação e implementação de soluções. A ferramenta ainda permite filtrar ações por estado, município e janelas de tempo, de seis a 36 meses, para observar a consistência dos resultados.

A Eficácia Comprovada por Dados Reais

O Sonar Municipal vai além da simples sugestão, integrando-se a indicadores reais para medir a eficácia e o impacto concreto de uma política pública. O sistema compara as propostas com dados de homicídios e matrículas escolares, por exemplo. Se o indicador de homicídios caiu ou o de matrículas subiu após a implementação de uma medida, o algoritmo entende que a política foi eficaz e aumenta sua relevância na sugestão.

Thiago Ambiel ressalta, contudo, que a plataforma identifica tendências, e não uma causalidade absoluta. “Se vários municípios aplicaram uma política semelhante e tiveram melhora no indicador, isso vira um sinal relevante para quem está buscando soluções”, explica o aluno. Essa abordagem baseada em evidências reais supre uma lacuna importante na gestão municipal brasileira, onde não existe um ambiente unificado para pesquisar o que outras cidades já fizeram para resolver problemas semelhantes.

Da Raspagem de Dados à Ferramenta Final

O projeto Sonar Municipal nasceu dentro da rede Inteligência Artificial Recriando Ambientes (Iara), coordenada pelo professor André Ponce Leon Ferreira Carvalho, diretor do ICMC e orientador de Thiago. A iniciativa faz parte do projeto internacional Artificial Intelligence for Pandemic and Epidemic Preparedness and Response (AI4PEP), que financia pesquisas em IA para enfrentar desafios sociais relevantes na área da saúde.

Em aproximadamente quatro meses, Thiago desenvolveu o algoritmo, realizando uma técnica de raspagem de dados que copiou informações de mais de 220 mil projetos de lei disponíveis em sites de prefeituras. Em seguida, utilizou um modelo de IA para transformar essas informações em recomendações de ação, ligando-as a indicadores do mundo real. Por exemplo, um projeto de lei para instalar iluminação em uma rodoviária é cruzado com dados de criminalidade local para observar a variação de crimes após a implementação.

Atualmente, o Sonar Municipal reúne informações padronizadas de mais de 300 municípios brasileiros, apesar dos desafios técnicos em coletar dados de prefeituras com sistemas próprios. “Quanto mais dados a gente consegue incluir, melhor o sistema fica. Mas mesmo com esse conjunto já é possível identificar padrões interessantes”, afirma Thiago.

Para o estudante, a experiência foi uma formação prática completa, desde o desenvolvimento do algoritmo e da interface até a estruturação do banco de dados. “Foi como desenvolver um produto do zero. A gente aprende muita coisa técnica na graduação, mas transformar isso em algo acessível e útil para a sociedade é outra etapa. E é muito gratificante”, conclui. A expectativa agora é que, com a divulgação do projeto, gestores públicos possam testar a plataforma em contextos reais, validando seu potencial para otimizar a tomada de decisões e promover um desenvolvimento urbano mais inteligente e baseado em resultados. O Sonar Municipal representa um avanço significativo na democratização do acesso a informações qualificadas, permitindo que as melhores práticas se espalhem e transformem a realidade de municípios em todo o Brasil.

Fonte: jornal.usp.br

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