A despeito das dimensões mastodônticas de São Paulo, é comum que os próprios paulistanos considerem bairros como Mooca, Santana ou Belenzinho como “muito looonge”. Desafiando essa percepção, o professor Fernando Viotti, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, embarcou em uma jornada ao Estádio Conde Rodolfo Crespi, na Rua Javari, para vivenciar a atmosfera do Juventus em um confronto contra o XV de Novembro de Piracicaba. Sua experiência revela um futebol que resiste à padronização e celebra a tradição.
A Essência do Futebol na Rua Javari
Chegando com antecedência ao lendário palco onde, segundo o folclore futebolístico, Pelé teria marcado um de seus gols mais bonitos – sem registros, mas imortalizado pela memória dos torcedores –, Viotti deparou-se com a simplicidade que define a Rua Javari. A compra do ingresso, longe das plataformas digitais e dos setores VIP, foi um respiro: folhas A4 informavam os preços claros, e a transação ocorria por uma janelinha gradeada, resultando em um bilhete lindamente impresso. Uma objetividade e elegância que contrastam com a complexidade do futebol moderno.
O Gramado do Moleque Travesso e a Tensão da Série A2
No interior do estádio, o professor mergulhou na glória do clube ítalo-brasileiro, que ostenta títulos como a Taça de Prata de 1983 e a Série A2 do Paulista em 2005. O jogo contra o XV de Piracicaba era crucial para o Juventus, que buscava se manter entre os oito melhores da Série A2 e sonhar com o acesso à elite paulista. O primeiro tempo transcorreu tenso, com poucas chances para ambos os lados. Um lance de perigo na área adversária culminou com um jogador do Juventus estendido no bem cuidado piso sintético, provocando o grito de “Chama o Var!” de um torcedor. A resposta veio de Vardinei, o operador do placar, que de sua cabine sentenciou: “Não foi nada, tropeçou na grama!”.
Gols, Paixão Grená e o Aroma Irresistível dos Canoles
O segundo tempo trouxe a virada grená. O delicioso aroma dos canoles, famosos por serem os melhores do Brasil e vendidos aos milhares em cada partida, tomou as arquibancadas. Impulsionadas pelas organizadas “Moleque Travesso” e “Paixão Grená”, as torcidas empurraram o time. Logo aos 5 minutos, Marcelo abriu o placar em uma cobrança de falta. Pouco depois, em outro tiro direto, Elkin Muñoz ampliou, levando o público ao delírio e, em tom de brincadeira, causando “tristeza” ao vice-presidente Geraldo Alckmin, torcedor do XV. A dupla de zaga, envergando os números 32 e 33, garantiu a solidez defensiva, enquanto a entrada de Edinho e, nos minutos finais, de um jogador chamado Romário, sacramentou a vitória com uma bomba de canhota.
Uma Celebração da Tradição e um Convite ao Retorno
Ao apito final, a maioria dos 3.659 pagantes deixou a Rua Javari feliz, garantindo uma renda de mais de 117 mil reais, além da venda de camisas, bandeiras e, claro, milhares de canoles. Viotti, embora tenha ficado sem o seu canole e sem cumprimentar o professor Pasquale Cipro Neto, assíduo frequentador do estádio, já tem motivos para voltar. A experiência na Rua Javari é descrita como uma “janela para o sonho e a brincadeira”, um modesto, mas autêntico desafio à tecnocracia contemporânea e à ditadura da vida administrada, provando que o futebol ainda pode ser uma celebração da paixão e da simplicidade.
Fonte: jornal.usp.br


