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O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho: Uma Análise Profunda da Ditadura Brasileira nos Anos 70 e o Legado da Ausência

A memória da ditadura brasileira ainda ecoa, e o cinema, com sua capacidade de ressignificar o passado, nos oferece lentes poderosas para revisitar esses tempos. O filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, é um desses espelhos. Sua narrativa, ambientada nos anos 1970, provocou uma curiosa troca de mensagens, que se iniciou com uma pergunta sobre a obra e terminou em uma profunda reflexão sobre a história, a arte e as marcas deixadas pelo autoritarismo.

Um Brasil de Desdentados: O Cenário da Ditadura

Desde a cena inicial, o filme nos joga em um Brasil cru, longe dos cartões-postais. Um corpo estendido no chão de um posto de gasolina, coberto por papelão, com os pés à mostra, diante de um funcionário indiferente com dentes descuidados e barriga saliente. Essa imagem é um retrato visceral de um país assimétrico, não só na riqueza, mas também na saúde e na dignidade. A resposta à curiosidade sobre os dentes das personagens, inclusive da namorada dentista, é direta: “O Brasil dos anos de 1970 era terra de desdentados.”

A ambientação silenciosa da barbárie é sugestiva para uma década sangrenta, onde mortos e desaparecidos se tornaram parte de uma história repleta de lacunas. O filme de Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Wagner Moura, mergulha na história do Brasil em tempos de ditadura, mostrando a violência cotidiana: policiais que insinuam propina, a naturalização da miséria e a indiferença diante da morte. Pacotes grandes e compridos jogados na água, um tubarão com uma perna masculina na barriga e notícias sobre uma perna peluda que assombra a cidade sugerem o suspense e o fantástico, marcas do diretor, que se mesclam à dura realidade da época.

Edifício Ofir: Refúgio e Cordialidade em Tempos Sombrios

Após a estrada, Marcelo (Wagner Moura), professor universitário perseguido por motivos político-profissionais, chega a Recife e encontra acolhimento no Edifício Ofir. Ali, a recepção calorosa de Dona Sebastiana (Tania Maria) e a apresentação à dentista e sua filha pequena, evocam uma cordialidade tipicamente brasileira. O edifício se revela um espaço de refúgio, onde se reúnem pessoas com problemas pessoais e políticos, como a dentista fugindo de um ex-marido autoritário ou um casal de angolanos perseguidos. Esse contexto de amizade e sexualidade não se enquadra na estética romântica, mas sim no cuidado e acolhimento mútuo, remetendo à forma de viver e receber um “companheiro” nos anos 70.

A Face da Repressão: Indignação e Barbárie

A indignação em tempos de ditadura é um tema central. Marcelo, autor de uma patente recusada por seu chefe, vê seu trabalho e ética questionados. A briga em um restaurante com o empresário Ghirotti e seu filho, em torno da venda da patente e do papel feminino no trabalho, escala para uma perseguição mortal. A solução encontrada pelo empresário, acostumado ao mando, é eliminar o antagonista, um reflexo da obediência cega exigida pela ditadura.

A maldade excessiva de Ghirotti, que lembra figuras históricas como Henning Albert Boilesen (o empresário que teria importado uma “pianola de choques” para a repressão), tende ao caricato, mas é um espelho da realidade. Empresas como a Volkswagen também colaboraram com a barbárie, fornecendo listas de ativistas sindicais. A expressão dos atores que representam a repressão no filme, com ódio em excesso e músculos faciais tensionados, é historicamente pertinente, evocando a figura do torturador sádico ou indiferente.

Luz e Sombra: A Estética de Kleber e o Fantástico

A iluminação do filme é marcadamente brasileira, com a luz abundante de Recife, uma cidade luminosa e aristocrata de espírito. As cenas em ambientes abertos, nas ruas ensolaradas, contrastam com a violência, que ocorre à luz do dia, expondo a brutalidade secular da sociedade brasileira. O diretor, de forma inteligente, evita os porões literais da ditadura. Em vez disso, ele mostra um tecido social roto, onde o fantástico desvenda a sociedade real, como na cena da fuga de Marcelo com Elsa (Maria Fernanda Candido), uma senhora da elite que arrisca tudo para ajudá-lo.

Tramas laterais, como a história do menino Miguel (fato verídico de 2020), a proteção do Estado à patroa em detrimento da vítima, ou o interrogatório sobre a vida de um alfaiate perseguido pelos nazistas, reforçam a ideia de uma continuidade histórica do autoritarismo e da violência. A “perna peluda”, elemento misterioso que mistura realidade e ficção, é a metáfora perfeita para os desaparecimentos e as perseguições, e também uma crítica à censura que forçava os jornais a preencher espaços com notícias fantasiosas ou receitas de bolo. Kleber Mendonça Filho mistura o absurdo e o dissonante para expor o que está escondido na natureza humana e nas profundezas da sociedade.

O Amor de Pai e o Vazio da Ausência

No cerne da trama está o amor de Marcelo por seu filho, Fernando. Ele retorna a Recife para levá-lo embora do Brasil, em uma tentativa de reconstruir a vida. A ditadura, no entanto, destrói laços familiares, corrói o tecido social e sufoca o diálogo. A indignação de Marcelo no restaurante, embora justa, impede que pai e filho tenham o direito de viver juntos. O filme “Tubarão”, que o avô reluta em deixar Fernando assistir, torna-se uma metáfora para os medos e a necessidade de proteção, simbolizando o desejo da criança por um pai super-homem e o sonho do pai de viver em paz com o filho.

A última cena do filme é um anticlímax poderoso, um retrato da ausência. Anos depois, a pesquisadora, que se dedicou a reunir documentos sobre Marcelo, encontra Fernando, agora um médico maduro. Ela espera que ele queira conhecer a história de seu pai, um herói para ela. Mas, diante da pesquisa, Fernando demonstra pouco interesse, lembrando apenas de ter vestido suas melhores roupas para esperar o pai. O vazio da ausência, a dor de uma história interrompida, é filmado com uma sensibilidade avassaladora, mostrando como as ditaduras, ao romperem os vínculos e a ética, deixam um legado de lacunas e silêncios, uma página em branco para as gerações que vieram depois. Um filme não é uma aula de história, mas “O Agente Secreto” é, sem dúvida, um atrevimento que nos convida a sentir e a refletir sobre um passado que se recusa a ser esquecido.

Fonte: jornal.usp.br

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