Michel Rabinovitch, uma figura central na história da biologia celular brasileira e mundial, celebra em 2024 seus 100 anos de vida. Sua trajetória, marcada por uma paixão inabalável pela ciência e por descobertas que redefiniram a compreensão da vida, é um testemunho de resiliência e dedicação.
Inicialmente inclinado à engenharia, a vida de Rabinovitch tomou um rumo decisivo após a perda precoce de seus pais por leucemia e tumor renal. Esses eventos trágicos o impulsionaram a mudar para a medicina, focando sua vida científica no estudo das células sanguíneas, tanto em sua normalidade quanto em suas patologias, um campo que ele viria a revolucionar.
A Formação na USP e o Despertar Científico
Em 1944, Michel Rabinovitch ingressou na Faculdade de Medicina da USP. Durante a graduação, teve contato com José Oria, pioneiro da Hematologia Morfológica no Brasil, e, a partir de 1948, com Luiz Carlos Uchôa Junqueira, que modernizou o Departamento de Histologia e Embriologia. Com o apoio financeiro da Fundação Rockefeller, Junqueira criou o Laboratório de Fisiologia Celular, um ambiente fértil para a pesquisa.
Ainda como estudante, em 1947, Rabinovitch publicou o primeiro de seus 149 artigos científicos e, no ano seguinte, já lecionava aulas práticas. Após graduar-se em 1949, foi convidado por Junqueira para ser professor assistente, iniciando oficialmente sua carreira acadêmica. Juntos, desenvolveram estudos com técnicas de histoquímica. Sua ascensão foi rápida, conquistando o doutorado em 1951, a livre-docência em 1953 e tornando-se professor adjunto em 1959.
Descobertas Pioneiras e o Impacto Internacional
Entre 1953 e 1954, com uma bolsa da Fundação Rockefeller, Michel Rabinovitch estagiou nas prestigiadas universidades de Chicago e da Califórnia em Berkeley, além de frequentar um curso de fisiologia celular no Marine Biological Laboratory. Foi nesse período que, em colaboração com Walter Plaut, realizou uma descoberta fundamental: a passagem de RNA do núcleo das células para o citoplasma. Essa revelação foi um marco, contribuindo imensamente para o desenvolvimento da biologia moderna.
Ao retornar à USP, Rabinovitch estabeleceu linhas de pesquisa independentes, consolidando sua reputação com importantes contribuições em biologia e metabolismo celulares. Reconhecido por sua cultura, afabilidade e excelente didática, ele atraiu inúmeros estudantes e pesquisadores, muitos dos quais seguiram carreira acadêmica, incluindo o autor do texto original. Sua capacidade de formar e inspirar talentos é um dos pilares de seu legado.
O Exílio Político e a Carreira Global
O ano de 1964 marcou um ponto de inflexão na vida de Rabinovitch. Nomeado docente da Universidade de Brasília, ele não pôde assumir o cargo devido ao golpe militar. Em um dos episódios mais sombrios da história universitária brasileira, foi sumariamente demitido da USP, juntamente com outros valiosos professores. Posteriormente, foi procurado pela polícia sob alegação de atividades comunistas, apesar de nunca ter tido participação política ativa.
Conseguiu escapar e, com um visto válido, refugiou-se nos Estados Unidos em julho de 1964. Lá, associou-se a Zanvil Cohn e James Hirsch no Laboratório de Fisiologia Celular e Imunologia da Universidade Rockefeller, em Nova York. Até 1969, dedicou-se a pesquisas cruciais sobre lisossomos e macrófagos, células de defesa que digerem partículas estranhas. Posteriormente, assumiu a posição de professor associado e, mais tarde, professor titular na New York University.
Em 1984, foi convidado pelo renomado Instituto Pasteur de Paris, onde se tornou mestre de pesquisas e chefe de laboratório, chegando a liderar a Unidade de Imunoparasitologia. Seus trabalhos focaram na relação entre fagossomos e leishmanias, parasitas intracelulares. Após sua aposentadoria em 1994, retornou à Rockefeller University para continuar suas investigações.
O Legado Duradouro no Brasil e Além
Em 1997, Michel Rabinovitch retornou definitivamente ao Brasil, aceitando o convite para ser professor colaborador e pesquisador na Disciplina de Parasitologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp. Ali, continuou a produzir trabalhos científicos e a orientar alunos de doutorado, muitos dos quais hoje são pesquisadores em instituições de prestígio como a USP e a Unifesp.
Ao longo de sua carreira, em todos os laboratórios por onde passou, Rabinovitch sempre abriu as portas para estudantes e pesquisadores do Brasil e do exterior, promovendo o intercâmbio científico e a formação de novas gerações. Seu impacto é reconhecido por diversas honrarias, incluindo ser membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Professor Emérito da Faculdade de Medicina da USP e Membro Emérito da SBPC, além de ter recebido a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Científico do governo brasileiro.
Hoje, Michel Rabinovitch reside em São Paulo, mantendo-se atento e interessado nos acontecimentos do Brasil e do mundo, um verdadeiro ícone da ciência que, aos 100 anos, continua a inspirar.
Fonte: jornal.usp.br


