Em um avanço promissor para a saúde pública, cientistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP desenvolveram um novo método de síntese de derivados do eugenol, um composto fenólico aromático encontrado no óleo de cravo. A inovação resulta em substâncias com maior estabilidade, seletividade e potencial farmacológico, abrindo caminho para o desenvolvimento de novos medicamentos, produtos de higiene, cosméticos e aplicações veterinárias.
A pesquisa foca inicialmente no combate à leishmaniose, uma doença parasitária que registra uma média anual de 12.655 casos no Brasil, afetando principalmente regiões rurais do Norte e Nordeste. Segundo o professor Giuliano Clososki, responsável pelo estudo, a modificação estrutural do eugenol visou amplificar suas propriedades medicinais. “A avaliação biológica dos compostos demonstrou exatamente que essa hipótese estava correta, que é possível, sim, gerar candidatos potencialmente leishmanicidas a partir dessa estratégia”, afirma.
Eugenol: Da Culinária à Farmacologia
O eugenol é amplamente conhecido por seu aroma e sabor picante, presente não só no cravo-da-índia, mas também na canela e na mirra. Tradicionalmente, é utilizado em óleos essenciais, como repelente e até em remédios caseiros para dor de dente ou indigestão. Na odontologia, já é empregado em restaurações provisórias e como anti-inflamatório.
Contudo, apesar de seus atributos conhecidos, não existem medicamentos aprovados pela Anvisa que utilizem o eugenol como estrutura principal. A equipe da USP buscou preencher essa lacuna, inserindo um grupo chamado 1,2,3-triazol na molécula do eugenol. Esse grupo é comum em fármacos e possui alta compatibilidade biológica, conferindo novas características e potencializando as propriedades terapêuticas do composto.
Um Novo Horizonte para a Leishmaniose e Outras Doenças
Além da atividade leishmanicida, os derivados do eugenol demonstraram potencial anticâncer, antifúngico e anti-inflamatório, conforme destaca Henrique Orenha, um dos pesquisadores envolvidos. Na ação contra a leishmaniose, a molécula de eugenol combinada ao triazol é capaz de modular o sistema imunológico, estimulando o corpo a combater o protozoário causador da doença em sua forma amastigota. Embora o mecanismo de ação exato ainda esteja em investigação, Clososki ressalta que “possivelmente nós temos um mecanismo de ação diferente dos fármacos conhecidos até o momento. Isso abre a oportunidade para que a gente desenvolva novas terapias”.
Leishmaniose: Uma Doença Negligenciada
A leishmaniose tegumentar, caracterizada por feridas na pele e mucosas, e a forma visceral, que atinge órgãos internos e é altamente letal, representam um desafio de saúde pública. A doença, transmitida pela picada do mosquito-palha infectado, afeta não apenas humanos, mas também animais, como cães, que podem atuar como reservatórios do parasita. Não há vacina para a leishmaniose, e a prevenção se baseia no combate ao mosquito e no cuidado com os pets.
A pesquisa da USP é impulsionada pela necessidade de encontrar soluções para doenças negligenciadas, que frequentemente recebem menos financiamento de grandes empresas farmacêuticas por não serem lucrativas. “Nós ainda temos uma incidência muito grande dessas doenças, que são chamadas negligenciadas. E nós sabemos que esse tipo de pesquisa normalmente não é financiado por grandes empresas farmacêuticas”, explica Clososki, enfatizando a motivação social do projeto, que também contempla o interesse da área veterinária.
Próximos Passos e o Futuro da Pesquisa
Atualmente no nível de maturidade tecnológica TRL4, o próximo passo da pesquisa envolve avaliações em vivo para refinar a estrutura molecular. O laboratório já tem recebido contato de empresas interessadas em colaborar no desenvolvimento do projeto, o que indica um futuro promissor para que esses derivados do eugenol se transformem em produtos terapêuticos eficazes e acessíveis, combatendo uma série de enfermidades que impactam milhões de pessoas globalmente.
Fonte: jornal.usp.br


