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‘Récorde’ ou ‘Recorde’? A Inusitada Batalha Judicial Pela Pronúncia da Sílaba Tônica e o Alerta de Linguistas da USP Sobre os Perigos de Legislar a Língua Portuguesa

O que poderia parecer uma simples discussão sobre a sílaba tônica de uma palavra ganhou, no Brasil, contornos de litígio jurídico. A pronúncia de “recorde” — se paroxítona (reCORde) ou proparoxítona (RÉcorde) — se tornou objeto de uma ação judicial, levantando um debate crucial sobre a relação entre a norma prescritiva da língua e o uso efetivo. Segundo Marcelo Módolo, professor da FFLCH-USP, e Henrique Braga, doutor pela mesma instituição, essa judicialização da prosódia é um desenvolvimento inédito e preocupante.

A questão central reflete uma tensão clássica na linguística: de um lado, a tradição gramatical que historicamente recomendou a forma paroxítona; de outro, a prática amplamente difundida no português brasileiro, especialmente no discurso esportivo e televisivo, que consagrou a forma proparoxítona, provavelmente influenciada pela pronúncia inglesa “REcord”. Para os especialistas, essa divergência é um exemplo da vitalidade e instabilidade inerentes a qualquer língua em circulação, algo que a própria história lexicográfica já demonstrava.

A Sílaba em Litígio: Entre a Norma e o Uso Efetivo

Dicionários do século XIX e início do XX, como o “Diccionario Prosodico de Portugal e Brazil” e o “Diccionario etymologico, prosódico e orthographico da lingua portugueza”, já evidenciavam o esforço em fixar padrões. Contudo, mais do que códigos de correção, esses materiais revelavam a existência de variantes e oscilações, funcionando como registros de práticas efetivas de um idioma em constante movimento. A norma gramatical indicava um caminho, mas o uso nem sempre o seguia em linha reta.

Essa dinâmica entre prescrição e prática é uma constante na história do português e de outras línguas. A discussão, portanto, é antiga. O elemento realmente novo, e alarmante para os linguistas da USP, é a ideia de que a sílaba tônica de uma palavra possa ser fixada por uma sentença judicial. A prosódia, que é a parte da linguística que estuda a entonação, o ritmo e o acento das palavras, parece ter ganhado, de forma inédita, foro privilegiado.

Variação Linguística: Legitimidade e Empréstimos

Do ponto de vista sociolinguístico, a coexistência de “récorde” e “recorde” não representa um “erro”, mas uma variação legítima. Essa oscilação é particularmente comum no caso de empréstimos linguísticos, onde há uma tensão entre o aportuguesamento prosódico e a fidelidade à pronúncia original. Os autores citam exemplos como “FACEbook” e “INstagram”, que convivem com pronúncias mais adaptadas ao português como “FeiceBÚqui” e “InstaGRÔ.

A língua é, por sua própria natureza, heterogênea. A norma culta, embora essencial para a padronização e o ensino, coexiste com usos efetivos que se estabilizam em diferentes comunidades e registros. No contexto brasileiro, a forma proparoxítona “récorde”, mais próxima da pronúncia estrangeira, difundiu-se amplamente no jornalismo esportivo e televisivo. Embora possa não ser a preferida pelos manuais normativos, tampouco é um desvio isolado; é um uso reiterado, reconhecível e socialmente compartilhado, cuja frequência e circulação moldam a percepção de aceitabilidade.

O Inédito Cenário da Judicialização da Pronúncia

Transformar a variação prosódica em um litígio jurídico, argumentam Módolo e Braga, revela uma ideologia de padronização que ignora o caráter histórico e mutável do idioma. Não se trata de descartar a importância da norma ou da adoção de padrões por meios de comunicação, mas de questionar a desproporção de converter uma variação linguística em um “dano moral coletivo”. Compêndios gramaticais, enfatizam os especialistas, não são códigos penais, e debates linguísticos não são instâncias judiciais.

Os autores expressam surpresa com a iniciativa do Ministério Público Federal (MPF) de agir por conta própria, sem consultar especialistas. “Se a questão fosse de saúde, chamar-se-ia um médico; se fosse de engenharia civil, talvez um outro engenheiro ou um arquiteto. Sendo um fenômeno da língua, o mínimo seria ouvir linguistas – até para evitar o constrangimento”, afirmam. A variação prosódica de “recorde” é bem documentada na literatura linguística, e sua judicialização diz menos sobre a palavra em si e mais sobre a persistente crença de que o idioma precisa de um juiz.

A Língua é Viva: Além dos Vereditos Judiciais

Talvez o verdadeiro “recorde” neste episódio seja a inédita jornada de uma questão de prosódia, que saiu do jornalismo esportivo e chegou ao fórum, sem sequer um telefonema para um linguista de confiança. Esse percurso improvável serve como um lembrete elementar: a língua é um organismo vivo, plural e teima em escapar de sentenças definitivas.

Fonte: jornal.usp.br

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