O Convite Inevitável da Sardenha
Ao desembarcar na Sardenha, mesmo sem conhecimento prévio da ilha, há uma experiência que une todos os visitantes: a oferta de uma taça de mirto. Mais do que um simples licor, o mirto se revela um ritual social, uma assinatura aromática e uma linguagem paralela que embala jantares, conversas e promessas de retorno.
Das Raízes Mitológicas à Tradição Familiar
A história do mirto remonta à antiguidade, com o arbusto Myrtus communis, parte intrínseca da paisagem mediterrânea sarda. Seu nome, derivado do grego myron (essência perfumada), já anuncia sua nobreza. Na mitologia grega, era planta sagrada de Afrodite, associada ao amor e à sedução, mas também carregava uma aura ambígua, ligada a ritos fúnebres e espirituais. Os romanos o consideravam tão importante que o associavam à fundação de Roma, usando-o como símbolo e metáfora.
Por séculos, o preparo do mirto foi uma arte doméstica. Bagas colhidas à mão, infusões pacientes e receitas transmitidas oralmente davam origem a versões únicas em cada família. Era uma liturgia caseira, um gesto repetido que se tornava tradição, onde o equilíbrio entre doçura, intensidade e teor alcoólico era defendido com convicção.
A Modernização que Preserva a Essência
A partir da década de 1970, o mirto deu o salto para a produção industrial, mas sem perder sua alma artesanal. Hoje, um rigoroso disciplinar de produção garante sua tipicidade: bagas maduras, infusão hidroalcoólica, adoçamento natural, sem conservantes ou corantes. Essa modernização trouxe escala e reconhecimento internacional, mas o licor mantém uma aura familiar, como se cada gole conservasse algo de íntimo.
Um Sabor que Vai Além do Digestivo
Com um teor alcoólico que varia entre 28% e 36%, o mirto é apreciado gelado, principalmente por suas propriedades digestivas. No entanto, reduzi-lo a essa função seria uma injustiça gastronômica e cultural. Suas folhas aromáticas são usadas para assar o tradicional leitão, liberando óleos essenciais que perfumam a carne. Os brotos jovens dão origem ao mirto branco, uma variação mais delicada. Há até mesmo quem associe a mortadela a essa planta, através do myrtarium romano.
Mirto: Um Símbolo Territorial e Cultural
Em um mundo de licores efêmeros, o mirto se destaca por sua profunda ligação territorial. Ele não tenta agradar a todos nem se adapta a tendências passageiras. Permanece fiel à sua paisagem, ao seu clima e a um ritmo que não se curva ao relógio. Beber mirto é, em essência, beber a vegetação mediterrânea, é beber a própria Sardenha.
Fonte: jornalitalia.com


