O Brasil enfrenta um cenário alarmante no trânsito, com o número de mortes voltando a crescer e a violência se tornando uma marca da mobilidade nas grandes cidades. Segundo o professor Paulo Saldiva, especialista da Rádio USP, o país perde aproximadamente 17 pessoas a cada 100 mil habitantes, e somente na cidade de São Paulo, mais de mil vidas são ceifadas anualmente. Este aumento preocupante acende um alerta para a urgência de repensar a forma como nos relacionamos com as ruas e veículos.
O Cenário Alarmente das Mortes no Trânsito
A escalada da violência no trânsito não é um fenômeno isolado. Saldiva destaca que as principais vítimas são os pedestres, em especial os idosos, e os motociclistas jovens. Mais recentemente, os ciclistas também passaram a figurar entre os grupos mais vulneráveis. Essa realidade complexa aponta para falhas sistêmicas que vão além da imprudência individual, refletindo uma cultura de desrespeito e negligência que permeia o dia a dia das cidades.
Quem São as Maiores Vítimas e Por Quê?
A falta de educação e o desrespeito às normas de trânsito são apontados como fatores cruciais para o alto índice de acidentes. Além disso, o uso de álcool e drogas ilícitas ao volante agrava significativamente o problema. No entanto, a análise de Saldiva vai mais fundo, criticando uma legislação por vezes leniente e um sistema de controle que historicamente privilegia o trânsito motorizado em detrimento da segurança dos mais vulneráveis. Faixas de pedestres ignoradas e tempos semafóricos curtos forçam os pedestres a se arriscarem, reforçando a percepção de que as cidades são feitas “para quem anda a motor”.
A Visão Motorizada das Cidades e Suas Consequências
O professor ressalta a insuficiência de investimentos em infraestrutura básica, como a melhoria do calçamento e da sinalização, e a resistência em adotar limites de velocidade mais restritivos. Há um claro desencontro entre a engenharia de trânsito e a engenharia de saúde, onde a primeira nem sempre prioriza a vida. O resultado é um cenário onde, além das mortes precoces, geram-se milhares de pessoas com sequelas graves e incapacidades, um custo social e humano imenso, especialmente quando se trata de jovens no auge de sua produtividade.
Um Pacto Urgente Pela Vida e Cidadania
Para Saldiva, é imperativo que a sociedade estabeleça um pacto para reduzir o número de fatalidades e traumas. A solução passa por uma governança mais eficaz, uma engenharia de tráfego que priorize a cidadania e, fundamentalmente, pela educação. É preciso mudar a concepção de que as ruas são um espaço exclusivo para veículos motorizados e reconhecer que elas pertencem a todos, promovendo um ambiente mais seguro e humano para jovens motociclistas, idosos pedestres e todos os usuários do espaço urbano.
Fonte: jornal.usp.br


