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Ramadan: Desvendando o Mês Sagrado que Transforma a Vida Cotidiana e Fortalece a Comunidade Islâmica Globalmente

Ramadan: Desvendando o Mês Sagrado que Transforma a Vida Cotidiana e Fortalece a Comunidade Islâmica Globalmente

Mais que um jejum, o nono mês do calendário islâmico é um período de profunda reflexão, caridade e conexão, reorganizando o tempo e os laços sociais dos muçulmanos ao redor do mundo.

As festas e períodos religiosos possuem um papel central na organização da vida cultural e espiritual das comunidades. Seja o Rosh Hashaná judaico, que segue um calendário lunissolar, ou as celebrações de Iemanjá, com datas fixas em religiões de matriz afro-brasileira, esses momentos sagrados promovem uma pausa na rotina e atribuem um significado especial ao tempo. No Islam, o Ramadan é um exemplo primordial dessa transformação do cotidiano, um período de suspensão e ressignificação que impacta profundamente a vida dos muçulmanos.

O Tempo Sagrado e a Organização da Vida

Para a antropologia, conforme destacou Émile Durkheim, rituais e festas religiosas são fundamentais para a vida social. Eles não são meras expressões de fé individual, mas acontecimentos coletivos que fortalecem a solidariedade e reafirmam valores compartilhados. Ao reunir as pessoas em torno do sagrado, esses momentos criam um sentimento de pertencimento, reforçando a coesão social e diferenciando o tempo religioso do cotidiano. Muitos outros pensadores da antropologia, como Arnold Van Gennep e Marcel Mauss, também dedicaram estudos à importância dos rituais religiosos na construção da identidade coletiva e da organização social.

Ramadan: Um Mês de Jejum e Reflexão

O Ramadan, o nono mês do calendário islâmico, é um período singular na vida dos muçulmanos. Diferentemente do calendário gregoriano, o islâmico é lunar, baseado nos ciclos da Lua. Cada mês começa com a observação da lua nova crescente, um marco essencial para o início do Ramadan, que dura 29 ou 30 dias. Como o ano lunar tem aproximadamente 354 dias — cerca de 11 dias mais curto que o ano solar —, as datas do Ramadan adiantam-se a cada ano no calendário comum, o que significa que ele pode ocorrer em diferentes estações ao longo do tempo.

Durante o Ramadan, os muçulmanos realizam o jejum da alvorada ao pôr do sol. Essa prática, que consiste em abster-se de comida e bebida, é o quarto pilar do Islam, ao lado da declaração de fé, das cinco orações diárias, do pagamento do zakat (contribuição obrigatória para a purificação) e da peregrinação a Meca (para aqueles com condições físicas e financeiras). A duração do jejum varia conforme a localização geográfica; enquanto em Oxford, em 2016, o jejum podia chegar a 19 horas, no Brasil, neste ano, ele será entre 13 e 14 horas, com pequenas variações.

Transformando o Cotidiano no Brasil

Em países não islâmicos como o Brasil, a suspensão completa da vida cotidiana durante o Ramadan pode ser um desafio, mas os muçulmanos encontram formas de adaptar suas rotinas. É necessário acordar muito cedo para o suḥūr, a refeição antes da alvorada, que no Brasil pode ser antes das 4h38. Ao longo do dia, o corpo se cansa, e muitos, como a professora Francirosy Campos Barbosa, da USP, ajustam compromissos, evitando atividades intensas após as 16h, por exemplo. Além do jejum, o mês é dedicado à caridade, à leitura do Alcorão, a uma maior frequência à mesquita, à moderação em discussões e à busca por uma alimentação e hidratação adequadas nos horários permitidos.

A pesquisadora, que estuda a comunidade muçulmana em São Paulo há quase 30 anos, observa que o Ramadan é um período em que muitos fiéis se reaproximam da religião, transformando-se em uma verdadeira “escola” de fé. Para sinalizar o jejum e compartilhar a experiência, ela criou o hábito de distribuir tâmaras a amigos e colegas, uma forma de integração em um ambiente predominantemente não muçulmano.

A Força da Comunidade e a Hospitalidade

O Ramadan é, acima de tudo, um período de intensa conexão social. É comum o convite para a quebra do jejum (iftar) com amigos e familiares, seja em casas, mesquitas ou restaurantes. As mesquitas em São Paulo, por exemplo, recebem um número significativamente maior de fiéis. A hospitalidade islâmica se intensifica, e as casas se enfeitam com frases do Ramadan, lâmpadas, luas e estrelas luminosas, envolvendo também as crianças, que, mesmo sem a obrigação de jejuar, aprendem sobre a prática por meio de jogos e presentes. Mães supervisionam seus filhos que optam por jejuar por algumas horas, introduzindo-os gentilmente à tradição.

A caridade, ou zakat, é outro pilar fundamental que ganha destaque, transformando o mês em um motor de justiça social. Espera-se que o zakat seja pago antes da festa do Eid, permitindo que listas de muçulmanos necessitados sejam ajudadas. Nesse momento, a ummah (comunidade islâmica global) se restabelece e se fortalece, evidenciando o poder transformador do Ramadan, que eleva o cotidiano ao extraordinário, como descreveria Richard Schechner. É um mês que, segundo a professora Francirosy, torna a vida e o cotidiano dos muçulmanos “mais suave e pleno”.

Com o início do Ramadan previsto para 18 de fevereiro, é um convite aberto a todos para conhecerem uma mesquita ou mussala próxima, experimentar um pouco da hospitalidade islâmica e compartilhar desse significado de transformação. Ramadan Mubarak (Ramadan Abençoado) a todos os muçulmanos!

Fonte: jornal.usp.br

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