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"title": "Pesquisadores da USP Criticam Resolução do CFM que Veta Terapia Hormonal para Jovens Trans em Artigo na The Lancet",
"subtitle": "Comentário publicado na renomada revista científica argumenta que a norma 2.427/2025 do Conselho Federal de Medicina ignora evidências e vozes de pacientes, aprofundando disparidades na saúde de uma população vulnerável.",
"content_html": "<h1>Pesquisadores da USP Criticam Resolução do CFM que Veta Terapia Hormonal para Jovens Trans em Artigo na The Lancet</h1><h2>Comentário publicado na renomada revista científica argumenta que a norma 2.427/2025 do Conselho Federal de Medicina ignora evidências e vozes de pacientes, aprofundando disparidades na saúde de uma população vulnerável.</h2><p>Um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) publicou um comentário contundente na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, criticando veementemente a Resolução 2.427/2025 do Conselho Federal de Medicina (CFM). O texto, divulgado online na última segunda-feira (9), acusa a resolução de priorizar a incerteza em detrimento das evidências existentes sobre os benefícios dos cuidados afirmativos de gênero para crianças e adolescentes.</p><p>Os autores, ligados a departamentos como a Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) e a Faculdade de Medicina (FM) da USP, além do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos) do Hospital das Clínicas, fazem um apelo direto ao CFM para que reconsidere a resolução. Eles enfatizam a necessidade de integrar as vozes da comunidade trans e de seus familiares na formulação de políticas públicas de saúde, alertando para o risco de aprofundar as disparidades de saúde já existentes.</p><h3>Restrições da Resolução e Contraponto Científico</h3><p>Adotada em abril de 2025, a Resolução nº 2.427 do CFM impôs severas restrições ao cuidado afirmativo de gênero. Entre as medidas, está a proibição do uso de bloqueadores de puberdade para crianças e adolescentes com disforia de gênero, a vedação da terapia hormonal para menores de 18 anos e a restrição de cirurgias de redesignação com efeito esterilizador, agora permitidas apenas para maiores de 21 anos.</p><p>O CFM justificou as restrições com base em críticas à qualidade dos dados sobre a transição de gênero, preocupações com a capacidade de consentimento informado de adolescentes e riscos de arrependimento. No entanto, os pesquisadores da USP argumentam que, embora a demanda por dados robustos seja legítima, a abordagem do CFM negligencia evidências já disponíveis que apontam para resultados positivos do acolhimento. Estudos indicam melhorias no bem-estar psicológico, redução da disforia e de pensamentos suicidas em jovens que recebem cuidados de afirmação de gênero.</p><h3>Vozes de Jovens e Cuidadores Ignoradas</h3><p>Para fundamentar sua crítica, o grupo de pesquisa da USP citou dados de um estudo com 54 adolescentes trans atendidos no Amtigos e 116 pais e cuidadores. Os resultados são claros: a grande maioria se opõe à Resolução 2.427. Entre os adolescentes, 92,6% discordaram fortemente da proibição dos bloqueadores de puberdade, 94,4% da nova restrição etária para terapia hormonal e 59,3% do aumento da idade mínima para cirurgias. Os números entre os cuidadores foram igualmente altos, com 93,1%, 89,7% e 61,2% de discordância, respectivamente.</p><p>Estudos qualitativos aprofundaram esses números, revelando que tanto os jovens quanto seus cuidadores se sentiram "atacados" e descontentes com a decisão do CFM. A pesquisadora Bruna Mazzolani, coautora do artigo, ressaltou que a resolução falha em ouvir aqueles que serão diretamente afetados, uma parte crucial do cuidado em saúde. Essa oposição foi consistente em diferentes estágios de tratamento, inclusive entre aqueles que ainda não o haviam iniciado.</p><h3>Contexto Global e Impacto na Pesquisa</h3><p>Bruno Gualano, professor da FM e primeiro autor do artigo, alerta que a resolução se insere em um contexto global de desmantelamento das políticas de saúde para pessoas transgênero, citando as leis antitrans promulgadas nos Estados Unidos. Ele e seus coautores já haviam criticado o CFM em julho de 2025 na revista Nature Medicine, destacando que a norma representa um retrocesso não apenas para o bem-estar da população trans, mas também para a ciência brasileira.</p><p>A resolução, ao exigir dados de longo prazo para autorizar tratamentos e, simultaneamente, impossibilitar a pesquisa clínica com bloqueadores, cria um paradoxo. Alexandre Saadeh, coordenador do Amtigos e coautor, lamenta que a medida represente "um tolhimento da pesquisa científica e de todo o acolhimento e trabalho que a gente vem fazendo", impactando diretamente a produção de evidências necessárias para um cuidado baseado em ciência e ética.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br
