O Brasil perde anualmente cerca de R$ 1,7 trilhão devido ao que é conhecido como Custo Brasil. Esse montante, que representa aproximadamente 20% do Produto Interno Bruto (PIB), é o resultado de um conjunto de fatores crônicos que prejudicam o ambiente de negócios, como a burocracia excessiva, a complexidade do sistema tributário, a infraestrutura deficiente e os altos custos de produção. De acordo com um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), esses elementos não apenas reduzem a competitividade das empresas nacionais, mas também afastam investimentos e limitam o potencial de desenvolvimento econômico do país.
Como o Custo Brasil é calculado e seu impacto
Para chegar à estimativa de R$ 1,7 trilhão, a CNI utiliza uma metodologia baseada em comparações internacionais. Fabrício Silveira, superintendente de Política Industrial da CNI, explica que o cálculo parte da diferença entre o custo de produção no Brasil e o custo médio para produzir os mesmos bens em países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “Essa diferença representa um gap de competitividade, que é o que chamamos de Custo Brasil”, afirma Silveira. A análise abrange 12 eixos considerados vitais para a economia, reunidos na “mandala do Custo Brasil”, que inclui áreas como capital humano, energia e, claro, a burocracia. A soma dessas ineficiências reflete o impacto de 20% no PIB brasileiro.
Interesses e a resistência às reformas
Apesar de o problema ser conhecido, a solução esbarra em questões que vão além da técnica. Silveira destaca que os principais entraves são de execução e coordenação política, exigindo uma “articulação dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, para que trabalhem em sincronia, em dezenas de frentes simultâneas”. Complementando essa visão, o economista Luciano Nakabashi, professor da FEA-RP da USP, aponta para a existência de interesses arraigados na manutenção do Custo Brasil. “Quem ganha com essa situação? E quem vai perder se a gente mudar?”, questiona Nakabashi, sugerindo que grupos de poder político e econômico se beneficiam do cenário atual e resistem a reformas que poderiam, no curto prazo, prejudicá-los. “Esses grupos têm todo o interesse de manter a situação como está. Por isso, é tão difícil fazer mudanças que afetam o crescimento e o desenvolvimento da economia brasileira no longo prazo”, conclui o especialista.
Avanços e os desafios para destravar a economia
Atualmente, mais de 40 projetos prioritários estão mapeados no grupo de trabalho do Custo Brasil, dentro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). Silveira menciona avanços significativos em iniciativas como o marco de garantias, projetos de infraestrutura e a própria Reforma Tributária, classificadas como vitórias. Contudo, outros projetos enfrentam paralisação devido à burocracia ou a conflitos de interesse. O desafio é manter o ritmo, garantir que as leis aprovadas sejam regulamentadas e não se tornem “letra morta”, além de avançar com propostas ainda não concretizadas. “O entrave, na prática, é formar consenso e transformar esse discurso em regulação diária”, pontua Silveira.
A Reforma Tributária como parte da solução
A Reforma Tributária, cuja implementação teve início em janeiro, é vista como um passo importante para mitigar o Custo Brasil. Nakabashi avalia que a medida traz avanços relevantes ao buscar mais igualdade nas tarifas entre diferentes produtos, o que se traduz em ganhos de eficiência econômica. No entanto, ele alerta para as distorções que podem surgir pela influência de grupos de interesse durante o processo. “Sempre vão sendo colocadas exceções por causa dos grupos de interesse. Quem consegue mais exceção não é porque aquele produto faz mais sentido, mas porque esses grupos têm mais poder político para conseguir o que querem”, explica o economista. Ele conclui que a Reforma Tributária ajudará, mas sua eficácia dependerá do respeito à sua aplicação original e da contenção da influência desses grupos, cujo impacto final é prejudicial para a sociedade e a economia como um todo.
Fonte: jornal.usp.br
