O Pagador de Promessas: O Marco Brasileiro que Conquistou Cannes e Buscou o Oscar
Primeiro filme nacional indicado à maior premiação do cinema, a obra de Anselmo Duarte atravessou fronteiras e gerou debates acalorados, consolidando-se como um ícone da cinematografia brasileira.
Em 1963, um ano repleto de eventos marcantes na política e na cultura mundial, o cinema brasileiro alcançou um feito inédito: O Pagador de Promessas, dirigido por Anselmo Duarte, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Embora não tenha trazido a estatueta para casa – o prêmio foi para o francês Sempre aos Domingos –, a nomeação já representava um divisor de águas para a produção nacional.
Um Triunfo em Cannes Antes da Glória Americana
O reconhecimento internacional de O Pagador de Promessas não se limitou à indicação ao Oscar. No ano anterior, em 1962, o filme já havia feito história ao conquistar a cobiçada Palma de Ouro no Festival de Cannes. Até hoje, é o único representante brasileiro a alcançar o ápice da premiação francesa. Essa conquista o colocou em pé de igualdade com obras de diretores renomados como Sidney Lumet e Michelangelo Antonioni, superando expectativas e desbancando favoritos.
A recepção no Brasil foi apoteótica, com a equipe sendo recebida como heróis nacionais. Uma curiosidade que marca a trajetória da Palma de Ouro é que o troféu ficou guardado por mais de uma década em um cofre na cidade natal de Duarte, Salto (SP). A senha se perdeu com o tempo, e o cofre só foi arrombado em 2022, mais de dez anos após a morte do diretor.
A Trama de Fé e Conflito
Baseado na peça teatral de Dias Gomes, um dos maiores dramaturgos brasileiros, O Pagador de Promessas narra a jornada de Zé do Burro (Leonardo Villar). Após fazer uma promessa a Santa Bárbara em um terreiro de candomblé para salvar seu burro, Nicolau, Zé precisa cumprir o voto carregando uma pesada cruz de madeira até Salvador. Sua esposa, Rosa (Glória Menezes), o acompanha.
A narrativa se intensifica quando o padre local proíbe que Zé cumpra sua promessa em virtude de sua origem religiosa, desencadeando um conflito que expõe o choque entre a fé popular, a rigidez institucional e as diferenças culturais e sociais entre o homem do sertão e a vida urbana. O filme aborda de forma sensível o sincretismo religioso e o preconceito.
O Legado e as Críticas do Cinema Novo
Apesar do sucesso internacional, O Pagador de Promessas enfrentou críticas internas, especialmente do movimento Cinema Novo. Jovens cineastas da época, defensores de um cinema mais experimental e politizado, consideravam a obra de Duarte excessivamente comercial e influenciada por modelos clássicos de Hollywood. Glauber Rocha, um dos expoentes do movimento, que chegou a colaborar brevemente na produção, tornou-se um de seus detratores mais ferrenhos.
Mesmo com as ressalvas de parte da crítica nacional, o filme representou o Brasil em Cannes após vencer a disputa interna com Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Hoje, O Pagador de Promessas é acessível em plataformas de streaming como Globoplay e Telecine, permitindo que novas gerações apreciem este marco do cinema brasileiro.
É importante notar que, antes de O Pagador de Promessas, o Brasil já havia tido participações no Oscar, como a indicação da canção Rio de Janeiro em 1945 e a vitória de Orfeu Negro (coprodução Brasil-França-Itália) em 1960. Contudo, O Pagador de Promessas se destaca por ser a primeira produção inteiramente nacional a alcançar tal reconhecimento, abrindo caminho para futuras conquistas.
Fonte: super.abril.com.br
