Em julho de 1996, o nascimento da ovelha Dolly marcou um divisor de águas na biotecnologia, provando a possibilidade de clonar um mamífero adulto. Trinta anos depois, a clonagem animal, aplicada em diversas espécies como bovinos, equinos e suínos, evoluiu significativamente, encontrando novas aplicações que vão desde a reprodução de animais de alto valor genético até a promessa de órgãos para transplantes humanos. Contudo, apesar dos avanços, a técnica ainda enfrenta desafios importantes e não atingiu a escala comercial que se esperava.
O Legado de Dolly e os Desafios Atuais
A clonagem animal, embora tenha sido um marco científico, ainda lida com a baixa eficiência. Segundo Marcelo Demarchi Goissis, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, a taxa de sucesso da técnica permanece reduzida, e há um risco considerável de alterações inesperadas nos animais clonados. Essa limitação tem impedido que a clonagem se consolide como uma ferramenta de uso comercial em larga escala para programas de melhoramento genético.
No entanto, o impacto da clonagem vai além de suas aplicações diretas. A tecnologia impulsionou avanços cruciais em outras frentes da biologia, como as pesquisas com células-tronco e a reprogramação genética. “É uma técnica que ainda não foi adotada comercialmente, como se esperava, para fins de melhoramento genético”, observa Goissis, ressaltando que, “apesar do sucesso não estar tão evidente ainda, ela foi importante e ainda pode ser importante”.
Aplicações na Pecuária de Elite e Esporte
Atualmente, a principal utilidade da clonagem reside na reprodução de animais com características genéticas de alto valor. Na pecuária, a técnica permite a multiplicação de exemplares que possuem atributos produtivos superiores, garantindo a perpetuação de linhagens desejáveis.
Um segmento em notável crescimento é o da clonagem de equinos de alto desempenho. Diferentemente dos bovinos, onde o foco está no rebanho, a clonagem de cavalos atende a uma demanda individualizada, voltada para animais com performance esportiva excepcional. Cavalos de corrida e de competições equestres podem ser clonados para preservar e replicar características genéticas altamente valorizadas no mundo do esporte.
O Pioneirismo Brasileiro na Clonagem
O Brasil se destacou rapidamente no cenário global da clonagem animal, dominando a tecnologia poucos anos após o nascimento de Dolly. Em março de 2001, o país celebrou o nascimento de Vitória, a primeira bezerra clonada em território nacional, fruto do trabalho de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, o professor José Antonio Visintin foi um dos pioneiros, liderando o desenvolvimento de Marcolino, o primeiro bovino brasileiro clonado a partir de células fetais, consolidando a expertise nacional na área.
Xenotransplantes: A Próxima Fronteira da Clonagem
Mais recentemente, a clonagem tem se mostrado uma ferramenta promissora em um campo que pode revolucionar a medicina: os xenotransplantes. Pesquisadores da USP alcançaram sucesso na clonagem de um porco geneticamente modificado com o objetivo de que seus órgãos possam ser utilizados em transplantes para seres humanos.
A ideia de usar órgãos de animais em humanos não é nova, mas os avanços nas técnicas de edição genética, combinados com a clonagem, permitiram retomar e aprimorar essa linha de pesquisa. Conforme Goissis, a união entre clonagem e modificação genética abre novas e significativas perspectivas para a medicina, especialmente diante da crescente escassez de órgãos para transplante, oferecendo uma esperança real para milhares de pacientes.
Fonte: jornal.usp.br