O conceito de relacionamento romântico, muitas vezes, é limitado a duas pessoas pelo senso comum e até por definições de dicionário. No entanto, a nova mostra do Cinema da USP Paulo Emílio (Cinusp), intitulada “Três é Demais”, propõe uma quebra desse paradigma ao apresentar 14 longas e um curta-metragem que exploram as nuances da poligamia e dos triângulos amorosos. Em cartaz até 2 de agosto, a exibição acontece nas salas do Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária, e no Centro MariAntonia, na Vila Buarque, em São Paulo, com entrada gratuita.
“Nosso interesse não era apresentar filmes sobre traição, mas explorar a maneira como os relacionamentos podem se construir a partir de três pessoas”, explica Francesco Felix, um dos curadores da mostra. A ideia, segundo ele, estava “guardada na gaveta há tempos” e ganhou forma agora, permitindo uma programação mais intensa com três filmes por dia em algumas sessões, aproveitando o tempo reduzido da mostra.
Desvendando a Poligamia nas Telas
Felix destaca a vasta produção cinematográfica sobre o tema, afirmando que “o ser humano sempre gostou muito de histórias de romance” e que “qualquer relação a dois está sujeita a encontrar um terceiro elemento que vai mudar a dinâmica do relacionamento”. A mostra, com filmes antigos e recentes, permite uma análise da evolução da sociedade e do cinema na abordagem dos triângulos amorosos. “Antes, esses triângulos eram escandalosos, dramáticos, proibidos. Hoje, é mais sobre liberdade, fluidez das coisas”, pontua o curador.
Apesar de muitos filmes retratarem uma mulher e dois homens, as mulheres ganham um foco especial na curadoria. Felix observa que, nesses casos, “tem muita discussão sobre a masculinidade dos caras e sobre como a mulher está determinando isso”. Já em situações inversas, com duas mulheres e um homem, “a feminilidade fica em evidência”, mostrando a diversidade de perspectivas dentro do tema.
Clássicos e Contemporâneos em Foco
Entre as obras de destaque está o clássico francês A Mãe e a Puta (1973), de Jean Eustache. O filme de três horas e meia mergulha na vida de Alexandre, um intelectual ocioso sustentado pela namorada, Marie, em um relacionamento aberto, enquanto ele se envolve com Veronika. A narrativa explora profundamente a dinâmica entre os três, que em dado momento decidem por um ménage à trois, e como cada personagem lida com seus sentimentos e a presença do outro. O título, segundo Felix, reflete estereótipos machistas da época.
Outra produção francesa, Já Não Ouço a Guitarra (1991), de Philippe Garrel, oferece um tom mais melancólico. Inspirado no relacionamento do diretor com a cantora Nico, o filme narra a história de Gerrard, que, após ser abandonado, encontra estabilidade com outra mulher, mas seu antigo amor persiste. “Nesse caso, a triangulação se traduz como falta de compromisso. É sobre um sentimento muito verdadeiro entre duas pessoas, que nunca consegue se concretizar”, analisa o curador.
Para um toque de humor, Ciúme à Italiana (1970), de Ettore Scola, apresenta uma comédia onde o casal Oreste e Adelaide se apaixona pelo cozinheiro Nello. O ciúme inicial cede lugar a um relacionamento a três, ambientado no efervescente cenário político italiano da época, com a icônica Mônica Vitti no papel de Adelaide.
A mostra também celebra a Nouvelle Vague com Uma Mulher é Uma Mulher (1961), de Jean-Luc Godard, estrelado por Anna Karina. A trama acompanha uma dançarina de cabaré que, querendo ser mãe, é incentivada pelo namorado a procurar um amigo dele, gerando uma complexa teia de relacionamentos. Além disso, Sócios no Amor (1933), de Ernst Lubitsch, e o recente Rivais (2024), de Luca Guadagnino, exploram a dinâmica de dois amigos apaixonados pela mesma mulher, mas que também desenvolvem uma relação entre si.
Representação Brasileira e Diversidade Internacional
O cinema nacional é representado por Sangue Mineiro (1929), de Humberto Mauro, que ganha uma exibição especial com uma cópia restaurada de 7 minutos inéditos, em parceria com a Cinemateca Brasileira. A trama segue Carmem, que após perder o pai, é criada com Neuza e se vê em um triângulo amoroso que a leva ao desespero.
A programação é enriquecida ainda por O Amor é Mais Frio que a Morte (1969), de Rainer Fassbinder, exibido com o curta O Noivo, a Comediante e o Cafetão; o soviético Conhecendo o Grande e Vasto Mundo (1978), de Kira Muratova; e o aclamado mexicano E a sua Mãe Também (2001), de Alfonso Cuarón.
A mostra “Três é Demais” oferece, portanto, uma oportunidade única para o público paulistano explorar a riqueza e a complexidade dos relacionamentos a três através de diversas lentes cinematográficas. Com entrada gratuita, a programação completa está disponível no site do Cinusp. Não perca essa chance de revisitar ou descobrir narrativas que desafiam as convenções do amor e do afeto.
Serviço:
- Mostra: Três é Demais
- Onde: Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, São Paulo) e Cinusp no Centro MariAntonia (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, São Paulo)
- Quando: Até 2 de agosto
- Entrada: Gratuita
- Programação completa: Site do Cinusp
Fonte: jornal.usp.br
