O Legado Oculto do Feminicídio: Como Famílias de Vítimas Enfrentam o Trauma e o Abandono Estatal, Revela Pesquisa Inédita da USP

O Brasil registrou um recorde alarmante de 1.568 casos de feminicídio em 2025, o maior número desde a tipificação do crime em 2015, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Contudo, por trás de cada estatística, há uma realidade ainda mais complexa e dolorosa: a das famílias que ficam, os filhos, pais e irmãos que carregam o peso da ausência e da impunidade. É essa face pouco documentada da violência de gênero que a pesquisadora e assistente social Andréia do Nascimento Santos explora em sua dissertação de mestrado, Morre quem está próxima: narrativas de famílias afetadas pelo feminicídio, defendida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.

A Dor que Permanece: As ‘Vítimas Invisíveis’

O estudo de Andréia se debruça sobre os efeitos profundos e duradouros do feminicídio sobre órfãos e familiares, um grupo que ela denomina ‘vítimas invisíveis’. Através da metodologia da história oral testemunhal, a pesquisa reuniu relatos impactantes de três mulheres cujas vidas foram irremediavelmente transformadas. Allana perdeu a mãe, Celeuma, em 2023, após 17 anos de agressões. Andressa vivenciou o assassinato da irmã, a artista plástica Alessandra, em um incêndio criminoso em 2019, caso que a Justiça não enquadrou como feminicídio. Regina relembra o feminicídio da filha, Priscila, em 2007, tragédia seguida pelo suicídio de sua outra filha, Lailah, que não resistiu ao trauma.

A pesquisa enfatiza que o impacto do feminicídio se estende por décadas, gerando conflitos de guarda, restrições financeiras severas, colapso da saúde mental e uma busca incessante por justiça que o Estado, frequentemente, nega. Andréia do Nascimento Santos ressalta a dificuldade do processo de escuta: ‘É uma pesquisa de mulheres que escutam mulheres porque outras mulheres morreram assim. Você passa a sentir aquilo, foi muito difícil de fazer!’

Um ponto crucial do estudo é a distinção entre ‘femicídio’ (assassinato de mulheres por sua condição de gênero) e ‘feminicídio’, termo cunhado pela feminista mexicana Marcela Lagarde, que adiciona a responsabilidade do Estado pela omissão e ausência de políticas de proteção. Para Andréia, ‘o feminicídio não começa com a morte da mulher. Ele vem bem antes, e não termina com o agressor preso.’

Órfãos do Feminicídio e o Desamparo Estatal

Estima-se que mais de duas mil crianças perdem suas mães todos os anos no Brasil devido à violência de gênero. No entanto, o país ainda carece de um banco de dados integrado que permita dimensionar a real proporção desses casos. A pesquisadora denuncia que, após o crime, ‘a mulher morre, a família tenta sobreviver, e o agressor continua. As famílias não têm chance de reconstrução, porque não recebem nenhum tipo de apoio.’

Em muitos casos, o agressor cumpre sua pena, muda de cidade, reconstrói sua vida, enquanto as famílias das vítimas permanecem estagnadas no luto e nas consequências do trauma. A ausência de uma rede de apoio estruturada impede que esses sobreviventes encontrem caminhos para a reconstrução.

A Luta por Justiça e a Falha na Reparação

Diante do vácuo estatal, o ativismo e a resiliência familiar emergem. Regina criou a comunidade ‘Quem Ama Liberta’ para reunir informações sobre casos de feminicídio, dando rosto e história a cada número. Allana dedicou nove meses à busca pelo padrasto foragido, mobilizando redes sociais até sua prisão. Contudo, a justiça nem sempre corresponde às expectativas. Andressa descreveu como ‘surreal’ o julgamento do assassino de sua irmã, que não foi enquadrado como feminicídio, com o júri aceitando a tese de ausência de intenção de matar, apesar de o agressor ter trancado as vítimas e ateado fogo à residência. Para ela, ‘o pós-feminicídio começa quando a gente recebe a notícia, e é para sempre.’

Andréia avalia que algumas iniciativas, como o Auxílio Ampara (São Paulo) e a lei federal de 2023 que institui pensão especial para órfãos, representam avanços. No entanto, essas políticas se concentram quase exclusivamente na compensação financeira, negligenciando o acompanhamento psicológico e a assistência social continuada. O acesso aos benefícios é ainda dificultado por entraves burocráticos, como a exigência de reconhecimento judicial do feminicídio, excluindo muitas famílias cujas casos não receberam essa qualificação.

Um Chamado à Proteção Integral e à Memória

Para a assistente social, a rede de proteção precisa ‘ampliar seu olhar para toda a família, superando a lógica que frequentemente reduz a vítima ao papel de mãe.’ O estudo defende que as medidas de reparação contemplem o bem-estar e o desenvolvimento integral de todos os familiares afetados, que permanecem como ‘vítimas invisíveis’ para o Estado e a sociedade.

Andréia argumenta que, ‘se o feminicídio representa o desfecho de uma sucessão de falhas na proteção estatal, cabe ao poder público garantir um acolhimento integral, capaz de enfrentar os impactos do trauma e criar condições para que essas famílias reconstruam suas trajetórias.’ Preservar essas narrativas e reivindicar justiça é, para ela, uma forma de resistência ao apagamento e ao silenciamento histórico das vítimas e de seus familiares. ‘Não são só um número, cada uma tem uma história importante. Acho que é fundamental a gente conhecer essas histórias, dessas mulheres e também dessas famílias’, conclui a pesquisadora.

Fonte: jornal.usp.br

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