Ortega anuncia fim das eleições e consolida poder
O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, anunciou recentemente que não haverá mais eleições no país. A justificativa apresentada foi a de evitar que a oposição chegue ao poder. Em discurso marcando a comemoração da Revolução Sandinista de 1979, Ortega declarou: “Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o governo e conquistar o poder”. Ele também afirmou que “os dias em que partidos apoiados pelos ianques e pelos somozistas voltariam ao poder acabaram — nunca mais”. Esta foi sua primeira aparição pública em dois meses.
Histórico de Ortega e o Movimento Sandinista
Daniel Ortega ascendeu ao poder pela primeira vez após a Revolução Sandinista, que em 1979 pôs fim à ditadura de Anastasio Somoza. Originário do movimento sandinista, que nasceu no início do século 20 contra a interferência americana e lutou contra a ditadura da família Somoza, Ortega foi eleito presidente em 1985 e governou até 1990. Na época, o sandinismo era caracterizado por ideias de esquerda, anti-imperialistas e populistas.
Após perder eleições em 1996 e 2001, Ortega retornou à presidência em 2007 e, desde então, se mantém no cargo. Reformas constitucionais posteriores eliminaram os limites à reeleição consecutiva, permitindo que ele concorresse e vencesse as eleições seguintes. As votações de 2012 e 2016 foram marcadas por denúncias de fraude e pela inabilitação de opositores. A eleição de 2021 foi amplamente contestada após a prisão de opositores e líderes empresariais, além da criminalização da dissidência.
Acusações de autoritarismo e violação de direitos humanos
O governo de Ortega, que hoje governa ao lado de sua esposa, Rosario Murillo, como “copresidente”, tem sido alvo de severas críticas. O Conselho de Direitos Humanos da ONU acusou o regime de transformar a Nicarágua “em um Estado autoritário” e de violar sistematicamente os direitos humanos. A crise política no país se intensificou em abril de 2018, quando protestos contra o governo foram reprimidos violentamente, resultando na morte de mais de 300 pessoas.
Especialistas observam que a Nicarágua de hoje sob Ortega é significativamente diferente daquela dos anos 80. A repressão agora é direcionada com mais intensidade contra a própria dissidência interna do que contra opositores de direita tradicionais. A orientação política do regime atual é descrita como menos ideológica e mais autoritária, sendo frequentemente classificada como “o regime Ortega-Murillo”, uma autocracia liderada pelo casal.
Perseguição à Igreja Católica e fechamento de ONGs
Em uma reviravolta histórica, Daniel Ortega, que teve no passado o apoio da Igreja Católica em sua luta contra a ditadura, agora persegue a instituição. O governo tem expulsado freiras, prendido padres e bispos, e proibido o funcionamento de organizações religiosas. Em agosto de 2024, o registro de 1.500 organizações sem fins lucrativos foi revogado, incluindo centenas de grupos religiosos, sob a alegação de não apresentação de relatórios financeiros. Essa medida se soma a um histórico de cancelamento de mais de 5.000 ONGs, veículos de comunicação e universidades privadas desde junho de 2022.
O Escritório de Direitos Humanos da ONU expressou profunda preocupação com o fechamento dessas organizações, destacando a redução drástica do espaço cívico e as restrições à liberdade religiosa na Nicarágua. As liberdades civis no país diminuíram consideravelmente sob a liderança prolongada de Ortega, que em 2021 conquistou seu quinto mandato presidencial, em meio a acusações de uso de uma vaga lei de segurança nacional para prender opositores, jornalistas e ativistas.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br
