USP na Vanguarda: Estudo Internacional Desvenda Amiloidose Hereditária, Doença Genética Subdiagnosticada no Brasil, Buscando Medicina Personalizada

A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP está na linha de frente de um estudo internacional ambicioso, que busca lançar luz sobre a amiloidose hereditária por transtirretina (ATTRv). Esta é uma doença genética rara, mas grave, caracterizada pelo depósito de uma proteína anormal em órgãos vitais, como nervos e coração. Apesar da existência de tratamentos que podem retardar sua progressão, a ATTRv permanece significativamente subdiagnosticada no Brasil, um desafio que a pesquisa internacional visa superar.

Coordenado pela University College London (UCL), no Reino Unido, o estudo reúne dados clínicos e genéticos de mais de 5 mil pacientes atendidos em 46 hospitais de 17 países. A participação brasileira, crucial para a pesquisa, é liderada pelo médico neurologista e doutorando da FMRP, Gustavo Maximiano Alves. Ele é o responsável pela genotipagem dos pacientes brasileiros e integra a equipe de análises genéticas e bioinformática em Londres.

Desvendando os Mistérios da Evolução da Doença

O principal objetivo dos pesquisadores é compreender por que pacientes com a mesma mutação genética na proteína transtirretina — responsável pelo transporte de hormônios da tireoide e vitamina A — podem apresentar evoluções e gravidades tão distintas da doença. Quando alterada, essa proteína se deposita em diferentes órgãos, causando uma gama de sintomas que incluem perda de sensibilidade nas mãos e pés, tontura, distúrbios gastrointestinais, insuficiência cardíaca e comprometimento renal e visual. Sem tratamento, a doença pode ser fatal em cerca de dez anos após o surgimento dos primeiros sintomas.

Gustavo Alves, orientado pelo professor Wilson Marques Júnior (USP) e coorientado pelo professor Andrea Cortese (UCL), investiga os chamados “modificadores genéticos” da ATTRv. “Queremos destrinchar a complexidade genômica. Nossa pesquisa busca entender quais fatores genéticos influenciam a mutação que causa a doença e fazem com que os sintomas sejam tão diferentes. Esses modificadores também podem explicar por que a doença progride rapidamente em algumas pessoas ou por que determinados pacientes não respondem ao tratamento”, explica o pesquisador.

Essa compreensão aprofundada poderá abrir caminho para uma medicina mais personalizada. “Nosso objetivo é aperfeiçoar o tratamento e o manejo dos pacientes com amiloidose, contribuindo para novos marcadores de medicina personalizada, capazes de orientar desde o momento ideal para solicitar o teste genético até a escolha do tratamento mais adequado para cada paciente”, afirma Gustavo.

Brasil: Um Cenário Estratégico para a Pesquisa

Devido à forte herança genética portuguesa e africana presente na população brasileira, o país se tornou uma das regiões de maior interesse para a investigação da ATTRv. Estima-se que milhares de brasileiros sejam portadores dessas mutações genéticas. No entanto, o desconhecimento sobre a doença, tanto entre a população quanto entre profissionais de saúde, somado à limitada disponibilidade de testes genéticos específicos, leva a um alto índice de subdiagnóstico.

Globalmente, mais de 20 mil pessoas são afetadas pela doença. No Brasil, levantamentos do grupo da FMRP indicam mais de mil pacientes já diagnosticados, mas sugerem que muitos outros permanecem sem diagnóstico, especialmente em estados como Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o medicamento tafamidis, enquanto outros países já dispõem de terapias gênicas avançadas, capazes de reduzir em cerca de 80% a produção da proteína alterada, interrompendo a progressão da doença.

Colaboração Internacional e Reconhecimento Científico

A pesquisa brasileira integra uma das maiores coortes internacionais sobre amiloidose hereditária, sendo o Brasil o quarto país com maior número de pacientes incluídos no estudo. A contribuição da USP vai além do fornecimento de dados clínicos, abrangendo a análise dos resultados e a compreensão da origem genética das variantes, seus impactos em diferentes etnias e sua distribuição global.

O trabalho desenvolvido por Gustavo Maximiano Alves rendeu-lhe dois prestigiados fellowships internacionais: um da Peripheral Nerve Society (PNS), a ser realizado em 2025, e outro da International Society of Amyloidosis (ISA), com início previsto para os próximos meses. Além disso, ele recebeu uma bolsa do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE/Capes). Essas conquistas permitem que parte de sua pesquisa seja conduzida no Institute of Neurology Queen Square, da UCL, onde ele aprende novas técnicas genômicas e de bioinformática ainda não disponíveis no Brasil. “Receber essas bolsas representa tanto uma ratificação da qualidade do nosso trabalho quanto uma oportunidade de ampliar seu impacto e alcance para todo o mundo”, conclui o pesquisador, enfatizando o valor da colaboração e do aprendizado para o avanço da pesquisa e o benefício dos pacientes.

Fonte: jornal.usp.br

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