A ideia de que o envelhecimento é sinônimo inevitável de demência está sendo desafiada por evidências científicas robustas. Um estudo de dois anos, conduzido com mais de mil idosos em 11 países latino-americanos, demonstrou uma melhora impressionante de 55% na cognição global dos participantes que adotaram mudanças significativas no estilo de vida. Esta descoberta, publicada na renomada revista The Lancet, oferece uma nova perspectiva sobre a prevenção do declínio cognitivo, especialmente em populações de baixa e média renda.
O aumento da expectativa de vida tem sido acompanhado por uma crescente incidência de demência, mas a pesquisa Latam-Fingers, parte da rede global World-Wide Fingers, prova que a perda cognitiva acentuada não é um destino selado pelo envelhecimento. As intervenções estruturadas, que incluem dieta, exercícios físicos e mentais, são eficazes na promoção da saúde cerebral, e os resultados na América Latina superaram as expectativas.
O Estudo Latam-Fingers e Seus Resultados Inovadores
O estudo comparou um grupo de idosos que participou de intervenções supervisionadas – envolvendo atividade física, treinamento cognitivo, dieta e controle de fatores de risco cardiovascular – com um grupo que recebeu apenas orientações gerais. A melhora de 55% na cognição global, uma medida que engloba memória episódica, função executiva e velocidade de processamento, foi observada no grupo de intervenção. Aspectos avaliados separadamente também mostraram melhorias significativas.
As pesquisadoras Claudia Suemoto e Mônica Yassuda, ambas da USP e autoras do artigo, destacam que os efeitos foram ainda mais notáveis devido à vulnerabilidade da população latino-americana, caracterizada por maior risco cardiovascular, alta prevalência de diabetes e menor escolaridade. “Mesmo assim, ficamos surpresos com os números”, afirma Suemoto.
A Chave do Sucesso: Intervenções Multidomínio e Contexto Local
Um dos pilares do sucesso do Latam-Fingers foi a abordagem multidomínio, que combina diversas dimensões de intervenção. “Uma grande lição desses estudos é que as intervenções têm muito mais sucesso se realizadas em multidomínio, combinando várias dimensões. Muito mais do que trabalhar isoladamente só atividade física, só alimentação ou só treino cognitivo”, explica Mônica Yassuda.
Crucialmente, as intervenções foram adaptadas ao contexto sociocultural de cada país. A dieta Mind, por exemplo, foi reformulada para incluir produtos locais com antioxidantes naturais, como açaí, e baixo índice glicêmico, substituindo as “berries” caras e difíceis de encontrar. O treinamento cognitivo, realizado com jogos online, também exigiu adaptações, com sessões de ensino básico de tecnologia e monitoria para os participantes, que preferiram usar o celular.
Os exercícios físicos, intensos e realizados pelo menos quatro vezes por semana, incorporaram atividades culturalmente relevantes, como dança (salsa, tango, zumba). A conexão social, um fator protetor contra a perda cognitiva, foi estimulada pelos próprios participantes, que estendiam seus encontros semanais, criando redes de apoio e amizade.
Implicações para a Saúde Pública e o Futuro da Prevenção
Os resultados do Latam-Fingers têm profundas implicações para as políticas públicas de saúde. “A gente vai conseguir reduzir o risco de demência se fizermos um pacote de ações. Isso é possível de ser feito no SUS, na atenção primária; as UBS já oferecem ações em quase todos os aspectos, falta articulá-las”, sugere Yassuda. A viabilidade e a eficácia das intervenções adaptadas abrem um caminho claro para estratégias de saúde pública acessíveis e de grande impacto.
A Alzheimer’s Association, que investiu cerca de US$ 7 milhões no estudo, já está lançando iniciativas de saúde cerebral baseadas nessas descobertas, como a “(re)think your brain™”, que oferece uma “receita” de hábitos saudáveis para a população.
América Latina na Vanguarda da Pesquisa Global
A realização do estudo em 11 países da América Latina não apenas gerou evidências valiosas, mas também consolidou a capacidade de pesquisa da região. “Foram dois anos organizando o estudo clínico, cooperando, preparando o banco de dados, integrando as informações de 11 países. Essa parte da construção de capacidade de pesquisa talvez não seja algo que chame tanto a atenção do público geral, mas para a ciência da América Latina é incrível!”, comemora Claudia Suemoto.
O editorial da The Lancet que acompanhou a publicação do artigo reforça a importância global do Latam-Fingers, destacando que intervenções não farmacológicas não atingirão seu potencial se forem tratadas como culturalmente neutras. O estudo prova que o Sul Global não deve ser visto apenas como um local de futura carga da doença, mas como uma fonte de liderança científica, capaz de produzir soluções inovadoras e adaptadas às realidades locais.
Fonte: jornal.usp.br
