A crescente popularidade de plataformas de aluguel por temporada, como o Airbnb, está reconfigurando o mercado imobiliário e intensificando o debate sobre o acesso à moradia nas grandes cidades. O professor Luli Radfahrer, em sua coluna Datacracia, na Rádio USP, destaca como essa tendência transforma imóveis residenciais em hospedagens turísticas, gerando uma série de impactos sociais e econômicos.
Redução da Oferta e Alta nos Aluguéis
Ao tornar o aluguel de curta duração mais lucrativo, as plataformas digitais incentivam proprietários a retirar imóveis do mercado de aluguel residencial. Essa mudança diminui a oferta de moradias para residentes permanentes, resultando em uma pressão ascendente sobre os preços dos aluguéis em diversas metrópoles. Em bairros com forte apelo turístico, como em São Paulo e no Rio de Janeiro, a concentração de imóveis anunciados nessas plataformas é notável.
Gentrificação e Impacto Social nos Bairros
A valorização imobiliária impulsionada pelo aluguel por temporada contribui diretamente para o fenômeno da gentrificação. Esse processo afasta moradores de menor renda de suas comunidades de origem, alterando profundamente as características sociais e culturais dos bairros. Radfahrer também aponta para o uso de algoritmos de precificação dinâmica, que não só elevam, mas também uniformizam os valores das diárias, impactando diretamente o custo de vida local.
Concorrência Desigual e Desafios Regulatórios
Enquanto plataformas digitais e proprietários com múltiplos imóveis colhem grande parte dos lucros, o setor hoteleiro tradicional enfrenta uma concorrência considerada desigual. Hotéis estão sujeitos a exigências tributárias e regulatórias muito mais rigorosas, o que não se aplica da mesma forma aos aluguéis por temporada. Além disso, a proliferação de imóveis destinados ao turismo pode comprometer a convivência e a coesão social em áreas residenciais.
Caminhos para a Solução: Regulamentação e Experiências Globais
Para Luli Radfahrer, é fundamental conciliar o aluguel por temporada com a garantia do direito à moradia. Isso pode ser alcançado através de regulamentações específicas que estabeleçam limites para as locações de curta duração, exijam o cadastro de anfitriões e imponham restrições em determinadas áreas urbanas. Cidades como Amsterdã, Barcelona e Nova York já implementaram medidas semelhantes. No Brasil, o debate avança, com discussões sobre a atualização do Código Civil e decisões de condomínios que buscam regulamentar ou restringir esse modelo de locação em suas dependências.
Fonte: jornal.usp.br
