O Perigo Silencioso: Por Que Atletas de Endurance, Mesmo Saudáveis e Ativos, Podem Ser Vulneráveis à Morte Súbita e a Importância da Avaliação Cardíaca
Casos recentes levantam preocupações sobre condições cardíacas assintomáticas. Especialistas destacam a necessidade de exames preventivos, progressão gradual nos treinos e atenção aos sinais do corpo para garantir a segurança de maratonistas e triatletas.
A crescente visibilidade de mortes súbitas durante a prática de esportes de endurance, como maratonas e triathlons, tem gerado apreensão. Embora os afetados sejam frequentemente atletas profissionais e amadores com rotinas saudáveis e de treinos frequentes, esses episódios raros levantam questões cruciais sobre como problemas cardíacos podem passar despercebidos e se manifestar justamente sob intensa exigência física.
O cardiologista Breno Eto ressalta que, apesar da repercussão, não há dados científicos que comprovem um aumento na incidência de mortes súbitas durante o exercício. Ele atribui a maior visibilidade ao aumento do número de praticantes de modalidades de endurance. “O coração tem uma grande capacidade de adaptação, por isso algumas alterações não provocam sintomas até que um esforço muito intenso, associado à descarga de adrenalina ou até à desidratação, desencadeie um evento grave”, explica Eto, alertando que a parada cardíaca pode ser a primeira manifestação da doença, mas sintomas como tontura, desmaios ou mal-estar durante o exercício nunca devem ser ignorados.
Onde o Perigo se Esconde: Condições Silenciosas e Fatores Ambientais
Além das condições cardíacas preexistentes, fatores ambientais desempenham um papel significativo no risco. A cardiologista e atleta Camila Ferrão destaca que mudanças bruscas de temperatura e umidade alteram a resposta do organismo ao esforço físico. “No calor, a vasodilatação e a perda intensa de líquidos aumentam a frequência cardíaca e favorecem a desidratação, elevando o risco de hipertermia. Já no frio, a vasoconstrição aumenta a pressão arterial e o consumo de oxigênio pelo coração, o que pode favorecer eventos cardiovasculares em pessoas com doença arterial coronariana”, detalha. Em ambientes de alta umidade, a dificuldade na evaporação do suor também eleva o risco de exaustão térmica.
A desidratação, potencializada por essas condições, pode aumentar a frequência cardíaca e contribuir para um evento grave. Adequar o treinamento ao clima e manter uma hidratação rigorosa são medidas fundamentais para mitigar esses riscos.
A Chave da Prevenção: Avaliação Cardiológica Individualizada
Identificar previamente alterações cardíacas é uma das principais estratégias para garantir a segurança nos esportes de endurance. Camila Ferrão enfatiza que o acompanhamento cardiológico deve ser individualizado, variando conforme a idade e o perfil de risco do atleta.
Para atletas com menos de 35 anos, a preocupação principal recai sobre cardiopatias estruturais, como as cardiomiopatias (incluindo a hipertrófica, que causa espessamento do músculo cardíaco e pode ser assintomática) e doenças valvares. A avaliação inicial inclui história clínica detalhada, exame físico e eletrocardiograma, podendo ser complementada com ecocardiograma. “O grande desafio é que, em geral, ela é assintomática, principalmente nesses pacientes mais jovens”, pontua Breno Eto sobre a cardiomiopatia hipertrófica, que pode ter sua primeira manifestação fatal durante um esforço intenso devido a uma arritmia.
A partir dos 35 anos, a doença arterial coronariana torna-se a maior causa de morte súbita. Nesses casos, além da avaliação clínica, investiga-se fatores de risco e histórico familiar, com exames como teste ergométrico, ecocardiograma e outros complementares sendo indicados. Eto exemplifica com o caso de um maratonista de 65 anos, assintomático, que, apesar do histórico de tabagismo, descobriu obstruções significativas nas artérias do coração após um teste de esforço, corrigidas por angioplastia.
Equilíbrio é Fundamental: Treino Consciente e Respeito aos Limites
A forma como o treinamento é conduzido também é crucial. Filipe Alexandre de Oliveira, professor da USP, alerta que a “pressa é um dos principais fatores de risco nos esportes de endurance”. Muitos atletas amadores aceleram a evolução dos treinos sem respeitar o tempo biológico de adaptação do organismo. “O sistema cardiovascular leva meses, às vezes anos, para se adaptar a esforços prolongados. Quando o atleta aumenta o volume e a intensidade muito rapidamente, exige do coração e do organismo algo para o qual eles ainda não estão preparados”, explica Oliveira.
Essa prática favorece o acúmulo de fadiga, aumenta o estresse físico e cardiovascular, e eleva o risco de lesões, exaustão e complicações graves. O professor enfatiza que a evolução no endurance deve ser lenta, constante e paciente, com a performance sendo uma consequência da consistência ao longo dos anos, e não da pressa.
Para iniciantes, a recomendação é clara: começar com uma avaliação médica completa, especialmente cardiovascular. Em seguida, focar na adaptação com treinos leves, bem distribuídos e atenção aos sinais do corpo. A recuperação adequada, incluindo sono, hidratação e alimentação balanceada, são pilares que influenciam diretamente a capacidade do organismo de suportar o esforço físico com segurança. Respeitar esses princípios é essencial para desfrutar dos benefícios do endurance com minimização de riscos.
Fonte: jornal.usp.br
