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"title": "Como Favelas Brasileiras Enfrentam as Mudanças Climáticas: Desafios de Adaptação e Soluções Inovadoras para a Periferia",
"subtitle": "Com 16 milhões de brasileiros em áreas de risco, especialistas da USP e Cefavela destacam a urgência de planejamento urbano integrado e resiliência comunitária para mitigar impactos e garantir bem-estar social.",
"content_html": "<p>As favelas brasileiras, lar de cerca de 16,4 milhões de pessoas em mais de 12 mil comunidades, emergem como os territórios mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos. Construídas em locais muitas vezes impróprios, como grotas e baixadas, e marcadas pela precariedade de infraestrutura e serviços, essas áreas sofrem desproporcionalmente com inundações e deslizamentos, um cenário agravado pelas mudanças climáticas.</p><p>O Centro de Estudos da Favela (Cefavela), em parceria com a UFABC e financiado pela Fapesp, lançou o livro 'Coprodução e resiliência local: os planos comunitários de redução de risco e adaptação climática', que aborda a necessidade de integrar o tratamento de riscos ao projeto urbanístico, considerando não apenas processos geológicos, mas também a vulnerabilidade social dessas comunidades.</p><h3>A Vulnerabilidade Oculta do Planejamento Urbano</h3><p>Hugo Rogério de Barros, pesquisador do Centro de Síntese USP Cidades Globais, explica que a formação orgânica e desplanejada das periferias as afasta de serviços essenciais e da atenção de especialistas. “As pessoas vão loteando as suas casas com um pouco de conhecimento de edificação e, sem perceber, aqueles pequenos loteamentos vão configurando quadras e vão configurando bairros, que depois não têm centralidade e não estão próximos de serviços essenciais”, afirma.</p><p>Para Barros, a pauta climática, com sua complexidade sobre eventos extremos de precipitação e temperatura, torna-se distante dessas áreas. A falta de planejamento e a ausência de diálogos com o sistema social, científico e financeiro deixam as comunidades isoladas e sem acesso a alertas e cuidados preventivos.</p><h3>Resiliência e Adaptação: Um Novo Urbanismo Necessário</h3><p>Jeferson Tavares, professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP de São Carlos, enfatiza a importância de melhorar a resiliência e a adaptabilidade das comunidades periféricas. “A resiliência é estar mais preparado para aquilo que virá, porque a gente sabe que não vai ser possível combater todos os efeitos, e a adaptabilidade é transformar a forma como a gente pensa o planejamento do urbanismo nas cidades brasileiras de uma forma radicalmente diferente”, explica.</p><p>Segundo Tavares, as políticas públicas devem garantir o bem-estar social, com acesso a água encanada, coleta de esgoto, drenagem adequada, mobilidade e habitação de qualidade. Essas são as bases para evitar danos maiores das mudanças climáticas. “Se você mora em uma baixada de morro, por exemplo, onde há risco de alagamento, se a drenagem for adequada, esse risco minimiza muito mais, mesmo com os efeitos mais intensos, se ela for bem planejada”, exemplifica o urbanista.</p><h3>Soluções Integradas: O Exemplo da "Escada-Nexo"</h3><p>Tavares apresenta o projeto “escada-nexo” como um modelo de intervenção urbanística para reduzir impactos climáticos. Na Cidade Tiradentes, onde as escadarias servem como ruas, a proposta é transformá-las em um “grande equipamento ecológico”. A ideia é substituir as escadas de concreto por estruturas metálicas com tetos cobertos por placas de energia solar.</p><p>Por baixo dessas estruturas, seria instalada toda uma rede de captação de esgoto e de distribuição de água limpa para as casas, além de uma escadaria hidráulica para direcionar a água da chuva adequadamente. “Essa escadaria articulou a água limpa e a água da drenagem e esgoto com a geração de energia. Trata-se de um equipamento tecnológico que não é tecnicista, mas é uma tecnologia que incorpora soluções que estão vinculadas à demanda social, do dia a dia, da porta do cidadão que mora ali”, detalha Tavares.</p><h3>O Papel das Políticas Públicas e da Conscientização</h3><p>Barros reforça que a questão climática não é exclusiva da periferia, mas atinge a cidade como um todo. Ele defende que as políticas públicas precisam abordar a cultura da saúde ambiental em todas as camadas sociais. “Na periferia, nós precisamos alcançar culturalmente as pessoas para envolvê-las numa cultura de saúde ambiental. As pessoas precisam cuidar de si, cuidar da saúde, mas elas também precisam cuidar da saúde da comunidade.”</p><p>Para o pesquisador, é crucial aumentar a comunicação e envolver agentes comunitários e representantes na implementação de projetos de orientação específica. “O cuidado ambiental não é coisa só de gente rica, é coisa para toda a sociedade, nós precisamos pensar meios alternativos”, conclui Barros, salientando a necessidade de o Estado se fazer presente do ponto de vista educacional e cultural nas periferias para promover esse diálogo cotidiano e essencial.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br
