O futebol, mais que um esporte, é um espelho cultural que reflete aspirações e contradições de uma nação. No Brasil, essa paixão nacional revela padrões interessantes sobre nosso papel no cenário global, não apenas nos gramados, mas também no campo da ciência. Uma análise do professor André Frazão Helene, do Instituto de Biociências da USP, traça um paralelo notável entre a internacionalização de nossos jogadores e a de nossos pesquisadores, expondo a complexidade da nossa posição no mapa mundial.
A Migração de Talentos: Do Campo à Academia
A Copa do Mundo é um termômetro dessa dinâmica. Dos 26 jogadores da Seleção Brasileira, a imensa maioria atua em ligas europeias – 15 deles jogam na Inglaterra, Itália, França e Espanha, mais que o dobro dos sete que atuam em times brasileiros. Essa não é uma exclusividade do Brasil, mas a centralidade do poder, do financiamento e da excelência no futebol reside, hoje, principalmente no eixo europeu. O Reino Unido, por exemplo, possui um impressionante quociente de internacionalização de 7,9, indicando a vasta quantidade de atletas da Copa que jogam em seus clubes, enquanto o Brasil tem um índice de cerca de 1,2.
Essa tendência espelha a realidade acadêmica brasileira. Dados da Fapesp (BEPE) sobre a internacionalização da USP mostram um fluxo análogo: cerca de 55% das bolsas no exterior são para a Europa e pouco mais de 30% para os EUA. Nossos estudantes e jovens pesquisadores se dirigem tipicamente para essa mesma centralidade, buscando onde estão os recursos, o prestígio consolidado, a tradição e a excelência que constroem o reconhecimento global.
O Brasil como Polo Regional: Atrativo para a América Latina
Por outro lado, o Brasil também é um polo de atração. Quando observamos quantos atletas de outras seleções da Copa do Mundo atuam em clubes brasileiros, a resposta é geograficamente reveladora: atraímos majoritariamente talentos de vizinhos latino-americanos. Entre os mais de 30 estrangeiros que jogam no Brasil e estão na Copa, a maioria é de Uruguaios, Paraguaios, Equatorianos e Colombianos, com apenas um europeu (holandês).
Essa realidade se repete na academia. Quase 69% dos estudantes estrangeiros em programas de pós-graduação brasileiros vêm de países da América Latina, com cerca de 10% da África e 9% da Ásia, totalizando quase 90% do total. A analogia é clara: nossa internacionalização no futebol espelha essa mesma realidade regional que a Universidade.
Desafios e Reflexões sobre o Papel Global
Em suma, ciência e futebol, nesta relação internacional, guardam similaridades. Somos um centro local fundamental, um polo gravitacional para o nosso entorno latino-americano, mas, simultaneamente, um fornecedor de talentos para as grandes potências. Vivemos uma relação de mão dupla que, paradoxalmente, é dúbia: somos uma referência local que atrai nossos vizinhos, enquanto nos deslocamos para uma centralidade onde, muitas vezes, somos um celeiro de talentos, mas não de interesses.
É importante notar que, embora os EUA não sejam uma centralidade para a ida de jogadores brasileiros, ainda são o sétimo país que mais tem atletas estrangeiros em seus times. A Arábia Saudita, por sua vez, é o sexto país que mais atrai jogadores estrangeiros, embora 25 de seus atletas da seleção joguem em clubes locais. A centralidade global, contudo, é inegável: mais de 880 atletas da Copa atuam em times da Europa e dos EUA, representando mais de 70% do total.
Olhar para a Copa do Mundo permite tentar entender o mapa do nosso papel global. O intercâmbio com as grandes potências é, sem dúvida, uma expressão de nossa capacidade. Contudo, o destino final de nossa inteligência define nosso futuro. No futebol ou na ciência, a provocação permanece a mesma: o importante não é apenas onde nossos talentos jogam, mas para quem, afinal, estamos marcando os gols.
Fonte: jornal.usp.br
