A cada 1% de Armas em Circulação, Homicídios Aumentam Até 2% no Brasil, Revela Relatório

Um relatório recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2022 aponta uma correlação alarmante: a cada aumento de 1% na circulação de armas de fogo, os homicídios no Brasil crescem entre 1,2% e 2%. O estudo desmente a premissa de que o maior acesso a armamentos contribui para a diminuição de crimes como roubos, um dos principais argumentos do discurso armamentista.

Paralelamente a esses dados, o cenário legislativo brasileiro mostra um movimento contrário. O Atlas da Violência de 2026 registrou que, somente em 2025, 53 proposições que visam ampliar ou facilitar o acesso legal a armas foram apresentadas na Câmara dos Deputados. Dessas, 28 defendiam a ampliação do porte de armas, e nove buscavam reduzir custos de aquisição e facilitar o financiamento.

O Cenário da Violência Armada no Brasil

Apesar da discussão sobre a flexibilização, as armas de fogo continuam sendo o principal instrumento de letalidade. Em 2024, o Brasil registrou 29.870 homicídios por armas de fogo, o que representa 70,1% dos 42.590 homicídios totais no país. Embora a porcentagem seja a menor desde 2014, ela ainda é considerada preocupante por sua proximidade com as médias históricas.

Renato Alves, pesquisador associado ao Núcleo de Estudos de Violência (NEV) da USP, destaca o alto poder de letalidade das armas de fogo. “Em um conflito, entre levar uma pancada com um pedaço de madeira e tomar um tiro, a possibilidade da pessoa que tomou um tiro morrer é muito maior”, explica Alves, refutando a ideia de que “quem mata não são as armas, são as pessoas”.

Discurso Armamentista vs. Opinião Pública

Pedro Benetti, também pesquisador associado ao NEV-USP, explica que o discurso armamentista é fortemente impulsionado por atores políticos, e não por uma demanda da maioria da população. “As casas legislativas sempre funcionam como mecanismos de representação de interesses, mas também de criação/fortalecimento de posições específicas no debate público”, afirma Benetti.

Pesquisas de opinião desde a época do Estatuto do Desarmamento revelam um amplo apoio da cidadania a medidas restritivas. Um levantamento encomendado pelo Instituto Sou da Paz mostrou que 77% dos brasileiros acreditam que armas legalizadas podem virar crime, e 73% são avessos à ideia de ter uma arma em casa, indicando que o sentimento pró-armamento é minoritário.

A Ideia do ‘Cidadão de Bem’ e os Riscos

A noção de “cidadão de bem”, frequentemente atrelada à posse e porte de armas, é criticada pelos pesquisadores. Renato Alves argumenta que essa ideia reforça a desigualdade social, classificando quem é ou não “do bem” por critérios subjetivos, muitas vezes baseados em privilégios sociais, patriarcais e racistas.

Benetti complementa que essa ideia mobiliza uma “reivindicação moral” para justificar o armamento diante da suposta incapacidade estatal de resolver o problema da violência. No entanto, o aumento no registro de armas legais tem implicações diretas, como o maior acesso de grupos do crime organizado a armamento pesado, conforme estudo do Instituto Sou da Paz. Além disso, a ampliação da circulação de armas eleva os riscos de suicídios, acidentes domésticos e casos de violência doméstica.

Crescimento do Mercado e a Necessidade de Fiscalização

Atualmente, o Brasil tem mais de 2 milhões de registros ativos de armas de fogo, com 1,7 milhão de registros vencidos e cerca de 960 mil armas pertencentes a Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs). Esse cenário de crescimento do mercado de armas, combinado com fragilidades na fiscalização, intensifica a preocupação com a segurança pública.

Para diminuir a violência causada pelas armas, Pedro Benetti defende políticas públicas de curto, médio e longo prazo, que considerem as dinâmicas particulares de cada região e integrem diferentes setores do Estado – como assistência social, saúde e educação – junto à repressão qualificada. A restrição da circulação de armas de fogo é fundamental, mas, por se tratar de um bem durável, campanhas de recolhimento e ações contínuas são essenciais para lidar com o estoque existente na sociedade.

Fonte: jornal.usp.br

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