Frantz Fanon Revisitado: Museu das Favelas e USP Unem Arte Anticolonial e Pós-Graduação para Desmascarar Racismo em Tecnologias Emergentes
Exposição ‘Imaginação Radical’ celebra o centenário do pensador martinicano e inspira disciplina inovadora que explora seu legado para combater preconceitos na era digital, integrando arte, academia e periferia.
As ideias de Frantz Fanon (1925-1961), médico psiquiatra e filósofo martinicano, ganham nova vida e relevância em São Paulo. O Museu das Favelas sedia a exposição ‘Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon’, que propõe um diálogo entre a arte contemporânea e o pensamento anticolonialista. Paralelamente, em uma parceria inédita com a Universidade de São Paulo (USP), a mostra serve de base para uma disciplina de pós-graduação que investiga a manutenção do racismo através das tecnologias emergentes.
A exposição, que pode ser visitada gratuitamente até 24 de maio, reúne 130 obras de 40 artistas de oito países. Segundo Thaís de Menezes, curadora e diretora artística da mostra, o objetivo é “deslocar Fanon desse lugar” acadêmico para discutir os imaginários das favelas e das periferias. Dividida em quatro núcleos – Anticolonialidade, Território, O Corpo Psíquico e A Imaginação Radical –, a mostra aborda temas como ancestralidade, identidade territorial, pluralidade de corpos, embate colonial e disputa de narrativas, sempre em confluência com as provocações do pensador.
Fanon e a Luta Antirracista na Era Digital pela USP
Em uma iniciativa pioneira, a exposição é o ponto de partida para a disciplina ‘Racismos e Fundamentalismos na Era da Economia: Frantz Fanon e a Crítica das Imagens nas Tecnologias Digitais’. Coordenada pelo professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o curso visa integrar o espaço museológico como campo de pesquisa. A proposta é discutir como o racismo estrutural, as desigualdades e os fundamentalismos se manifestam e se expandem por meio de inovações tecnológicas como blockchain, criptomoedas, inteligência artificial e gamificação.
Com mais de mil inscritos como ouvintes, a disciplina busca uma aproximação entre o pensamento afrodiaspórico e as fronteiras tecnológicas mais avançadas da internet. “É também pensar Fanon como alguém que pensa a imagem e a identidade do colonizado, do oprimido, do negro, e falar: olha, é uma construção”, explica o professor Schwartz. A iniciativa faz parte do projeto piloto ‘Quilombo Inteligente’, financiado pela Agência Universitária da Francofonia e sediado no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, que integra a rede Universos Abertos à Imaginação, à Fantasia e às Artes da Invenção (UAIFAI), plataforma digital de inovação pedagógica e inclusão social.
O Corpo Psíquico: Arte e Saúde Mental na Periferia
Um dos núcleos mais impactantes da exposição é ‘O Corpo Psíquico’, que estabelece uma relação direta com a psiquiatria de Fanon. Ele explora como a colonialidade afeta o corpo e a mente, as percepções raciais, a psique e as formas coletivas de cuidado em contextos de violência e trauma colonial. Jairo Malta, fotógrafo, jornalista e curador do Museu das Favelas, ressalta a importância de abordar a saúde mental em comunidades marginalizadas.
“A mente é uma coisa que a gente nunca ligou mesmo. Enquanto corpos favelados, negros e muito expostos à violência, para a gente entender e começar a se ligar no nosso próprio corpo, para depois ir cuidar da mente, levou tempo”, afirma Malta. Para ele, o museu entende o corpo físico e a mente como algo a ser conquistado, e transformar conteúdos acadêmicos em algo didático por meio da arte é uma forma de expressar sentimentos e dores, mostrando que é possível falar de outros assuntos.
Deslocando Fanon: Diálogos Contemporâneos e Gênero
A curadoria da ‘Imaginação Radical’ buscou artistas que trabalham questões contracoloniais, descolonização, território e a construção do sujeito, estabelecendo um diálogo direto com o legado de Fanon. A mostra, por exemplo, adiciona elementos de discussão pouco tratados pelo intelectual, como a questão de gênero. “É também pensar que o Fanon não vai falar sobre gênero. Na verdade, fala muito pouco sobre a mulher e muito sobre o homem. É por isso que há um diálogo, e a Nenesurreal fala do corpo negro, desse corpo casa, mas ela traz o gênero bem posto também, tem ali uma discussão de gênero. É chamar ele para trocar ideia”, explica Thaís de Menezes.
As inscrições para ouvintes na disciplina ‘Racismos e Fundamentalismos na Era da Economia: Frantz Fanon e a Crítica das Imagens nas Tecnologias Digitais’ estão abertas em fluxo contínuo e podem ser realizadas online. As aulas acontecem às segundas-feiras, das 19h às 23h, no formato on-line, oferecendo uma oportunidade única de aprofundar o debate sobre racismo, colonialidade e tecnologia a partir da perspectiva de Frantz Fanon e da arte contemporânea periférica.
Fonte: jornal.usp.br
