Topias e tropias universitárias, parte 1 – O lugar da universidade

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"title": "O Futuro da Universidade em Xeque: Da Utopia à Tecno-Protopia, a Visão de Naomar de Almeida Filho e a Luta pela Autonomia no Brasil",
"subtitle": "Em tempos de incerteza e ataques ao conhecimento, um professor sênior da USP analisa a trilogia de um renomado educador, que propõe um caminho para a transformação das instituições de ensino superior.",
"content_html": "<p>A universidade brasileira, e globalmente, enfrenta um período de intensa turbulência, marcado por hostilidade, desinformação e ameaças à sua autonomia. Essa percepção, que já permeava a gestão reitoral da USP de 2022-2026, é reforçada pela plataforma da próxima gestão (2026-2030), que alerta para um cenário de “incerteza, hostilidade e ameaças no cenário internacional e em nosso país”. Diante desse cerco, a reflexão proposta pelo professor Naomar de Almeida Filho, reconhecido educador humanista e gestor universitário, emerge como um guia essencial para compreender e enfrentar os desafios existenciais da academia.</p><p>A trilogia de Naomar, cujo segmento central intitula-se “Universidade: Resposta diante do cerco”, adota a ideia de utopia, inspirada no livro “The University of Utopia”, de Robert Hutchins. Hutchins, que transformou a Universidade de Chicago em um polo intelectual global, já em 1953, debatia o papel da universidade em um contexto de grandes transformações. A obra de Naomar aprofunda esse debate, explorando diversas “topias” para mapear as tendências regressistas e os anseios de um passado idealizado que ressoam na sociedade atual.</p><h3>As "Topias" da Universidade: Um Glossário de Conceitos</h3><p>Naomar de Almeida Filho inicia sua análise com um glossário abrangente de vocábulos afins à utopia, como distopia e heterotopia. Um conceito particularmente relevante é a retrotopia, que expressa o anseio por um retorno a um passado fictício e idealizado. Essa noção é crucial para entender movimentos regressistas que ressurgem em diversas sociedades, por vezes de forma estridente, e que impactam diretamente o ambiente universitário.</p><p>Em contrapartida, o autor expande o tratamento da protopia, um neologismo que ele próprio propôs há duas décadas. A protopia, que serviu de base para a concepção da “Universidade Nova” e o Manifesto dos Reitores de Universidades Federais Brasileiras em 2006, busca uma reforma que alterasse a “profissionalização precoce e fechada” no Brasil, permitindo maior flexibilidade e trânsito entre áreas do conhecimento. No entanto, Naomar, como dirigente ativista, testemunhou a obstinada resistência a essas transformações, exemplificando sua frustração com o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que, para ele, tornou-se uma “janela de oportunidade perdida” ao “oferecer mais do mesmo”.</p><h3>Da Utopia à Protopia: Uma Visão Realista de Transformação</h3><p>Diferentemente da busca utópica por uma reforma radical e idealizada, a protopia se apresenta como um projeto realista de transformação, focado em melhorias incrementais e permanentes. Diante do crescente cerco às instituições públicas e às universidades, Naomar enfatiza que a universidade não pode se conceber como um “quarto poder soberano, isolado e autossuficiente”, nem assumir uma postura passiva diante de um colapso civilizatório. A protopia, nesse sentido, é uma alternativa para a universidade brasileira, baseada na inclusão social e étnico-racial, na reorganização curricular em ciclos formativos e no fortalecimento do vínculo entre universidade, educação básica e desenvolvimento nacional.</p><p>O autor contrapõe a protopia a três modelos de universidade: dois do século XIX e um do século XXI. O modelo utópico, descendente da Universidade de Berlim, do século XIX, é “baseado na autonomia institucional, na liberdade acadêmica e na centralidade da pesquisa científica”. O modelo atópico, derivado da Reforma Bonaparte na França pós-revolucionária, caracteriza-se pela “subordinação direta do ensino superior ao controle estatal”. Esses modelos históricos, muitas vezes pensados como estratégias nacionais, moldaram a concepção de universidade que temos hoje, incluindo a fundação da USP na década de 1930 como uma resposta estratégica.</p><h3>Modelos Históricos e o Cerco Distópico Atual</h3><p>O terceiro modelo, este dos nossos dias, é o distópico. Nele, a “autonomia universitária é ameaçada, o conhecimento é subordinado às lógicas de mercado e a universidade pública é fragilizada enquanto instituição estratégica para a democracia, a ciência e a inclusão social”. Naomar aponta o projeto “Future-se”, da gestão federal de 2019-2022, como um exemplo desse modelo, que infelizmente é exercitado em diversas nações vitimadas por governos autoritários ou insólitos, mesmo que democraticamente eleitos.</p><p>Naomar reafirma os princípios da autonomia institucional e da liberdade acadêmica como condições indispensáveis ao desenvolvimento do ensino e da pesquisa. Contudo, reconhece o desafio de aceitar um ente público autônomo em relação à instância que o financia, mesmo com sua legitimidade social. A propósito, há um movimento nacional de universidades públicas, estaduais e federais, em defesa da autonomia universitária plena, garantida pelo artigo 207 da Constituição Federal, abrangendo as autonomias didático-científica, administrativa, financeira e patrimonial. A USP, com o envolvimento da Chefia de Gabinete do Reitor e do Instituto de Estudos Avançados (IEA), tem participado ativamente desse movimento, que realizou um Ciclo Nacional de Seminários sobre Autonomia Universitária, percorrendo as cinco regiões do País.</p><h3>A Tecno-Protopia: Um Futuro para a Universidade Brasileira</h3><p>No terço final de sua reflexão, Naomar propõe uma “utopia esperançosa” para a universidade: a tecno-protopia. Esta estratégia visa articular forças políticas e movimentos sociais em torno de um projeto de universidade pública verdadeiramente autônoma, comprometida com a competência sociotécnica, a soberania tecnológica, a emancipação de sujeitos epistêmicos e a sensibilidade eco-etno-social. A evolução para a tecno-protopia é fundamentada em ideias do professor Silvio Meira, que aponta diretrizes para a universidade manter sua respeitabilidade na era da inteligência artificial: recuperar a agência epistêmica, transformar a avaliação (focando no processo cognitivo), reafirmar a função pública da discordância e democratizar a capacidade de pensar criticamente.</p><p>A elaborada reflexão de Naomar de Almeida Filho, que pode ser sintetizada como “da utopia à protopia e da protopia à tecno-protopia”, nos convida a repensar o “lugar” (tópos) da universidade. Em um cenário de crescentes desafios e incertezas, a proposta da tecno-protopia oferece um caminho realista e engajado para que a universidade brasileira reafirme seu papel estratégico na construção da democracia, da ciência e da inclusão social, garantindo sua autonomia e relevância no século XXI.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br

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