Os destinos turísticos ao redor do mundo estão enfrentando transformações profundas e aceleradas devido às mudanças climáticas, impactando não apenas a experiência dos visitantes, mas também a subsistência de milhões de pessoas e a economia local. Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU alertam que fenômenos como ondas de calor prolongadas, diminuição da neve, eventos extremos e a elevação do nível do mar estão redefinindo o funcionamento desses locais.
Vitória Avelino, doutoranda em turismo pela USP, destaca que “os destinos ao redor do mundo já registram sinais claros de transformação ambiental. Praias perdem faixa de areia, serras registram invernos mais curtos e biomas tropicais enfrentam alterações nas chuvas. Essas mudanças afetam diretamente a experiência do visitante e as economias locais que dependem da atividade turística”. A tendência, segundo o IPCC, é de intensificação desses impactos ao longo do século 21.
Consequências Diretas e o Fardo Econômico
Os efeitos são sentidos em cascata, atingindo pequenas empresas, comunidades e trabalhadores. Hotéis em regiões costeiras, por exemplo, lidam com a erosão. Em áreas de ecoturismo, trilhas são fechadas precocemente devido a tempestades mais severas, enquanto destinos de neve veem suas temporadas reduzirem drasticamente por invernos mais amenos. Análises do Fundo Monetário Internacional (FMI) corroboram essa preocupação, indicando quedas abruptas nas chegadas de turistas após eventos climáticos extremos, o que afeta diretamente a arrecadação, os empregos e a estabilidade fiscal de países dependentes do turismo.
A Contribuição do Turismo para a Crise Climática
Paradoxalmente, o próprio setor de turismo tem uma parcela significativa na geração de emissões. Um estudo publicado na Nature Communications estimou que, em 2019, o turismo foi responsável por cerca de 5,2 gigatoneladas de CO₂ equivalente, o que representa quase 9% das emissões globais daquele ano. Esse crescimento de emissões, impulsionado principalmente pelo transporte aéreo, hospedagem e consumo associado a viagens, tem sido mais rápido do que a média da economia global.
Avelino ressalta uma desigualdade notável: “A maior parte das emissões vem de poucos países de alta renda, enquanto muitos destinos que pouco contribuem com as emissões são os que enfrentam os impactos mais severos”.
Caminhos para Adaptação e a Urgência da Mitigação
Diante desse cenário, alguns destinos e empresas turísticas começam a adotar medidas. Hotéis investem em sistemas de eficiência energética e hídrica, como iniciativas de reúso de água no Nordeste brasileiro. Cidades ampliam ciclovias para reduzir a dependência de veículos motorizados, e restaurantes focam na gestão de resíduos e no uso de energia solar. Contudo, relatórios do World Economic Forum alertam que as mudanças ainda são insuficientes para alinhar o setor às metas globais de redução de emissões, sendo o transporte aéreo um dos maiores desafios.
Pesquisadores defendem a integração do turismo às metas climáticas nacionais, com países avaliando o crescimento de certas rotas e modalidades para não ultrapassar os limites compatíveis com o Acordo de Paris.
O Dilema do Viajante e a Oportunidade do Turismo Regenerativo
A preocupação com o clima já aparece nas pesquisas com turistas, mas ainda compete com fatores como preço, conveniência e hábitos. Um artigo publicado em 2025 na Sustainability ilustra esse dilema: embora os viajantes reconheçam a gravidade do problema, nem sempre transformam essa consciência em ação concreta.
Nesse contexto, cresce o interesse por experiências regenerativas, que visam recuperar ecossistemas e fortalecer comunidades locais. No Brasil, pesquisas indicam que essa abordagem pode ser uma oportunidade para repensar modelos de desenvolvimento turístico e reduzir vulnerabilidades.
Vitória Avelino conclui com uma reflexão poderosa: “O turismo sempre narrou histórias sobre paisagens. Agora, precisa olhar para a sua própria trajetória. Não para restringir viagens, mas para garantir que continuem possíveis. Se o ritmo atual continuar, talvez o maior deslocamento do futuro não seja viajar mais longe, mas lidar com o que já não existe.”
Fonte: jornal.usp.br
