Brasil na 107ª Posição: Ranking da Transparência Internacional Reacende Debate sobre Corrupção, Impunidade e Ética no País

O Brasil voltou a figurar em uma posição desfavorável no cenário global da percepção da corrupção. De acordo com o mais recente Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela organização Transparência Internacional, o país ocupa a 107ª colocação. Este indicador, que reúne avaliações de especialistas e do setor empresarial, visa mapear o nível percebido de corrupção no setor público, e não necessariamente a ocorrência real de atos corruptos.

A Percepção Versus a Realidade

Para Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, é crucial analisar o resultado com cautela. Ele enfatiza que o IPC mede a forma como a corrupção é percebida, e não a sua efetiva ocorrência. “O índice da Transparência Internacional é uma percepção, não a realidade, e é levantado sobretudo pela escuta do empresariado. Portanto, não é necessariamente um retrato da corrupção efetiva”, explica Ribeiro, destacando a importância de não confundir percepção com fatos concretos.

A Impunidade em Foco

A posição do Brasil no ranking, segundo Ribeiro, está intrinsecamente ligada à percepção social sobre a aplicação da justiça e a punição de crimes envolvendo indivíduos com maior poder econômico e político. A crença generalizada na impunidade dos mais ricos e poderosos é um fator chave. “É um medo muito grande da impunidade no Brasil e, ao mesmo tempo, a convicção de que ela é muito frequente”, observa o professor, ressaltando que essa sensação é um tema recorrente no debate público brasileiro.

Distinguindo Tipos de Corrupção

Ribeiro também alerta para a necessidade de diferenciar pequenos desvios de grandes esquemas que envolvem vultosos recursos públicos. Misturar essas realidades pode distorcer o debate sobre a corrupção no país. Ele argumenta que “a pequena corrupção, o furto de caneta em casa lotérica, não é uma coisa elogiável, mas não tem nada em comum com a corrupção gigantesca em licitações, com o desvio de verbas públicas ou com a tradição do patrimonialismo no Brasil”. Além disso, ele amplia a definição de corrupção para além dos escândalos, incluindo a apropriação privada de bens públicos no cotidiano.

Além do Combate à Corrupção

No que tange à formação ética da sociedade, o professor da USP sublinha o papel vital da educação na compreensão das estruturas que propiciam práticas corruptas. Contudo, Ribeiro ressalta que, embora o combate à corrupção seja necessário, ele não deve ser a única prioridade ética do Brasil. “A prioridade ética do Brasil não é a questão do combate à corrupção, que é necessário, sim. A prioridade ética é acabar com a fome e com a miséria”, conclui, defendendo uma visão mais ampla das urgências sociais e éticas do país.

Fonte: jornal.usp.br

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