A expansão sem precedentes da Medicina Veterinária no Brasil
Nas últimas duas décadas, a Medicina Veterinária no Brasil experimentou um crescimento quantitativo sem paralelo. Dados do sistema e-MEC e do CFMV/CRMVs apontam para algo entre 536 cursos em 2022 e cerca de 580 cursos autorizados para 2025, ofertando mais de 87 mil vagas anuais. Um número impressionante que ganha ainda mais relevância quando comparado ao cenário global: o total de escolas veterinárias no mundo inteiro gira em torno de 550 instituições. Em outras palavras, o Brasil concentra praticamente o mesmo número de cursos que todo o planeta. Essa estatística não é apenas um dado; é um reflexo profundo de um fenômeno com consequências estruturais.
Embora a expansão possa significar democratização do acesso ao ensino superior e ampliação de oportunidades, quando ocorre em um ritmo tão superior ao internacional e sem planejamento demográfico-profissional, ela gera impactos significativos no mercado de trabalho, na remuneração, na identidade profissional e no reconhecimento social.
O contraste com modelos internacionais
A comparação com outros países ilustra a singularidade do caso brasileiro. Nos Estados Unidos, existem cerca de 32 a 36 escolas de Medicina Veterinária acreditadas pela AVMA. O acesso é altamente competitivo, exigindo quatro anos de graduação prévia em áreas científicas antes da admissão na escola profissional, seguidos por mais quatro anos de formação específica. Na França, o modelo é ainda mais restrito: apenas quatro escolas nacionais públicas formam médicos-veterinários, com ingresso por concurso altamente seletivo após dois anos de estudos preparatórios, culminando em uma formação total de pelo menos sete anos. Em ambos os casos, há um controle quantitativo rigoroso de vagas e uma forte articulação entre qualidade formativa e reconhecimento institucional. No Brasil, o ingresso ocorre diretamente após o ensino médio, e a expansão foi impulsionada majoritariamente pela lógica do mercado educacional privado, resultando em um crescimento numérico muito superior.
Quando analisamos o número de profissionais ativos, o contraste se mantém. O Brasil possui entre 166 mil e 200 mil médicos-veterinários, enquanto os Estados Unidos têm cerca de 127 mil e a França, aproximadamente 21 mil. Ao relacionar esses números à população, a densidade profissional por 100 mil habitantes no Brasil (cerca de 78) é significativamente maior do que nos Estados Unidos (37) e na França (31).
Densidade profissional versus demanda real
Uma objeção comum a esse diagnóstico é que o Brasil, sendo uma potência agropecuária global, demandaria um contingente profissional superior. De fato, o país possui um rebanho expressivo, com cerca de 238 milhões de bovinos, 1,6 bilhão de aves, 44 milhões de suínos, 21 milhões de ovinos e quase 6 milhões de equinos. Contudo, ao comparar esses números com os dos Estados Unidos (que mantêm mais de 1,5 bilhão de animais nas mesmas categorias), a relação entre animais e veterinários não difere drasticamente. A proporção é semelhante: aproximadamente 10.750 animais de produção por veterinário no Brasil, cerca de 12.700 nos EUA e 10.800 na França. Isso sugere que o tamanho do rebanho brasileiro, por si só, não justifica a densidade muito maior de profissionais por habitante.
A World Organisation for Animal Health (WOAH) estabelece critérios de qualidade para serviços veterinários, mas não define parâmetros quantitativos de veterinários por população. Isso significa que a expansão da formação depende majoritariamente de decisões de política educacional e dinâmica de mercado, e não de metas sanitárias globais. No Brasil, a multiplicação de cursos ocorreu sem um planejamento nacional integrado que articulasse necessidades epidemiológicas, distribuição regional e projeções de absorção profissional.
O impacto no mercado de trabalho e na identidade profissional
As consequências dessa expansão sem planejamento são visíveis no mercado de trabalho. Embora as médias salariais formais indiquem remuneração superior ao salário mínimo, a realidade é heterogênea e, muitas vezes, precarizada. Relatos de plantões de 12 horas por valores modestos, vínculos predominantemente como pessoa jurídica, ausência de estabilidade contratual e forte competição urbana são recorrentes. A Medicina Veterinária é uma profissão de alta responsabilidade técnica, essencial para a saúde pública, segurança alimentar e controle de zoonoses. No entanto, em contextos de alta densidade profissional, a tendência econômica é a compressão de valores e a fragmentação contratual.
Esse cenário não gera apenas efeitos econômicos, mas também psicossociais. Profissionais enfrentam jornadas extensas, múltiplos vínculos e instabilidade de renda. O desgaste identitário surge quando o capital técnico acumulado não se converte em capital simbólico e econômico proporcional. Não é incomum que médicos-veterinários relatem ansiedade profissional, insegurança quanto ao futuro e necessidade de reorientação de carreira. A desvalorização, portanto, transcende a questão salarial; é uma questão de estrutura ocupacional.
Caminhos para a valorização da Medicina Veterinária no Brasil
Discutir a valorização não significa defender a restrição artificial da oferta de serviços para elevar preços. A sociedade depende da Medicina Veterinária para garantir alimentos seguros, controlar doenças e promover o bem-estar animal. O desafio é encontrar um equilíbrio entre acesso amplo, qualidade técnica e condições dignas de trabalho. Valorizar a profissão implica fortalecer o planejamento formativo, aprimorar os critérios de qualidade dos cursos, estimular uma distribuição regional mais equilibrada dos profissionais e combater formas de precarização contratual. Significa também ampliar o reconhecimento público do papel estratégico do médico-veterinário na estrutura sanitária nacional.
A expansão da Medicina Veterinária brasileira é, em muitos aspectos, um sinal de vitalidade e interesse social pela profissão. Contudo, um crescimento desarticulado pode gerar efeitos adversos profundos. O debate deve ser estratégico, não meramente corporativo ou econômico, refletindo sobre qual modelo de formação e organização profissional o Brasil deseja para as próximas décadas. Uma profissão essencial à saúde coletiva e ao sistema agroalimentar não pode depender exclusivamente da lógica de mercado educacional para definir sua escala e estrutura. Crescer é importante, mas crescer com planejamento é essencial para que a abundância de diplomas não se converta em fragilização simbólica e econômica da própria categoria. O futuro da Medicina Veterinária no Brasil dependerá da capacidade de transformar a expansão quantitativa em fortalecimento institucional, garantindo simultaneamente acesso social, qualidade técnica e valorização profissional sustentável.
Fonte: jornal.usp.br
