Um grupo de extensão da Universidade de São Paulo (USP) está lançando um alerta sobre a qualidade da areia comercializada na cidade de São Paulo. O projeto “Areia Viva”, uma colaboração entre a Escola Politécnica (Poli) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, investiga o uso de materiais sustentáveis na construção civil e expõe graves problemas relacionados à areia, desde sua extração irregular até a conformidade do produto final.
A iniciativa, que reúne estudantes de graduação em engenharia e arquitetura sob a orientação de professores da Poli e da FAU, busca não apenas evidenciar a importância técnica, econômica e social da areia, mas também promover seu uso sustentável e destacar lacunas regulatórias que permitem que uma parcela significativa da produção nacional permaneça fora dos registros oficiais.
A Importância Oculta da Areia e Seus Desafios
A areia é o segundo recurso natural mais consumido no mundo, superada apenas pela água, e é um componente essencial dos agregados minerais, responsáveis por cerca de um terço de todos os bens materiais consumidos pela humanidade. Apesar de sua onipresença na infraestrutura urbana, o setor de extração e comercialização opera com baixa visibilidade e fiscalização limitada, conforme aponta o professor Maurício Bergerman, da Poli.
Globalmente, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima a extração de 50 bilhões de toneladas de areia anualmente, volume que tem crescido exponencialmente. No Brasil, a situação é agravada pela extração irregular, que, segundo pesquisa do professor Luis Fernando Ramadon, da Poli, pode representar uma média de 60% da areia produzida. Essa ilegalidade não só compromete a qualidade e origem do material, como gera impactos ambientais severos, sonegação de impostos e riscos estruturais em construções.
Fiscalização Fragilizada e o Impacto no Consumidor
Diferentemente da mineração de metais, dominada por grandes corporações, a extração de areia é fragmentada entre pequenos e médios produtores, dificultando a fiscalização. “Existe um grande número de minas em operação. Por si só, essa fiscalização já é complexa”, explica Bergerman, que também ressalta a insuficiência de equipes em órgãos reguladores como a Agência Nacional de Mineração (ANM) e entidades ambientais estaduais.
A fragilidade institucional se reflete diretamente no consumidor. Análises realizadas pelo projeto “Areia Viva” em amostras coletadas em 14 depósitos da cidade de São Paulo revelaram que uma parcela significativa da areia comercializada em sacos não atende às normas técnicas vigentes. “O projeto mostrou que areias vendidas em alguns pontos da cidade de São Paulo não cumprem os padrões de qualidade e quantidade informados nas embalagens”, afirma Bergerman.
Essa baixa qualidade não é apenas uma questão comercial; ela pode comprometer seriamente a segurança das construções. O especialista alerta que a areia influencia o consumo de cimento e a durabilidade do concreto e da argamassa, podendo gerar “problemas importantes em uma construção”. As irregularidades mais comuns incluem excesso de argila, variações na granulometria e peso inferior ao declarado, fatores que elevam custos e afetam a qualidade final da obra.
Vazio Estatístico e o Papel da Universidade
O estudo também cruzou dados de produção declarada com o consumo de cimento no país, revelando um “vazio estatístico” significativo. A discrepância sugere que uma parte relevante da produção de areia não é declarada, resultando em evasão fiscal e prejuízo aos cofres públicos.
Para enfrentar essa complexidade, Bergerman defende uma ação coordenada entre órgãos públicos, entidades de classe e organizações de defesa do consumidor. Nesse cenário, a universidade emerge como um ator estratégico, capaz de produzir conhecimento e promover a transparência. “A Universidade pode mostrar a importância de utilizar areia de qualidade e contribuir com estudos que revelem o que está sendo comercializado”, pontua o professor.
Contribuições do Projeto Areia Viva: Pesquisa, Formação e Conscientização
Além das análises laboratoriais e da denúncia das irregularidades, o projeto “Areia Viva” contribui para a pesquisa em bioconstrução e o uso sustentável de minerais. A iniciativa promoveu oficinas de construção sustentável para os estudantes, realizou entrevistas com comerciantes e comunidades para incentivar o uso consciente da areia e participou da construção de uma casa modelo sustentável na comunidade Irmã Alberta.
O projeto também se destaca pela formação acadêmica e social dos estudantes envolvidos e pela produção de materiais didáticos, como folhetos e um livreto informativo, ampliando o alcance de suas descobertas e a conscientização sobre a importância de um insumo tão fundamental e, muitas vezes, negligenciado.
Fonte: jornal.usp.br
